“The Wheel of Fortune” de Edward Burne-Jones
Tudo é evasivo.
Do topo das montanhas,
nada contemplo
há milhões de anos,
senão almas revoltas
em mares bravios.
O céu de chumbo
contempla há mais anos
a noiva que retoca
promessas
de futuros fados,
indecifráveis.
Meninos carregando
o globo e o destino.
O profeta carregando
os incautos
por vazios evasivos
de não esperar.
A certeza
é, apenas, uma roleta
ou um dado
atirado no pano verde.
Façam o jogo,
senhores...
De: João Costa Filho
De que lugar vim,
não sei,
passado, futuro?
Com tua imagem completa
pespegada em mim
quadro, relíquia, escultura
sonho?
Mona, Juliete, Margarida, Isolda
preces de amor, saudade
Vim viver, e te vi
caminho, ventura
solidão,
a catarse...
Planejo todas as manhãs
e noites,
te encontrar
nada me realizará
senão, o dia de ti
e enquanto a lua
for quieta e lúdica,
espero acontecer.
Em tuas mãos me ponho
te proponho
e me entrego..
Para que, faça-se a luz...
João Costa Filho
“A dreamer” Caspar David Friedrich
No âmago de minha alma
tu estarás sempre.
Aqui, moras há muito,
mas quase não tens vagar.
Temo que, mesmo sonho,
um dia partas,
deixando desabitado
o vazio,
nossas conversas e
nossos carinhos
de roteiros precisos,
pois sonhos.
Se pinturas,
tenho o pincel exato.
Se esculturas,
um cinzel vivo.
Se vocábulos,
faço delicadas leituras,
tão delicadas
às almas que amam
incertezas.
E, assim,
sempre estás comigo,
como nuvens, pássaros,
rosa, sexo.
E, assim, retenho-te
indelével,
sem conhecer-te,
mas possibilito tudo,
na inesgotável capacidade
de criar, para mim,
esse mundo de nós dois,
eternamente...
De: João Costa Filho
“A dead Poet being carried by a Centaur” de Gustave Moreau
Nada posso saber
e nada sei desses crimes
de abjurações.
Talvez, crime hediondo?...
Mas deve ser ele
o culpado.
Um sujeito que beija colibris,
que carrega o mapa dos caminhos
e se perfuma nos raios de lua...
Que se banha no orvalho,
que conversa com os peixes
e os pássaros,
com avencas, dálias
e, com rosas, tira prosa...
Que usa um gafanhoto na lapela,
que assobia e sussurra
o nome Dela,
que atravessa a ponte,
para beber a água da fonte
e da sabedoria...
Que tem intimidades
com o arco-íris,
que deita e dorme
na Via Láctea,
que faz louvação
às noites estreladas,
onde a solidão é nada...
Que conhece
a linha do horizonte,
que tem os pés
em todos os rios,
que se perde no labirinto
dos sonhos,
que carrega consigo
muitas catedrais,
que fala, corretamente,
o idioma dos absurdos,
que entende, preferencialmente,
os loucos,
que é dono dos prantos
e reclamos
das coisas do amor...
Que é vizinho da dor,
que vive nas nuvens
e sabe tudo dos grilos
e dos ventos uivantes...
Que desabrochou as margaridas
e os lírios do campo...
Só pode ser ele!
(quem mais seria?...)
O poeta!
Recomendo a pena capital.
De: João Costa Filho
"Metamorphosis of Narcissus" de Salvador Dali
Viajar em mim
já não basta,
para perceber o gênero
humano.
Olho-me no espelho,
profundamente,
e sou o que nego.
Hesito em me ver,
se, ali, está e mora
tudo que condeno...
Não vou mais acusar,
não vou mais denegrir
ou dizer mal,
ou nomear vilões
ou canalhas.
Vou me abster
dessa ilicitude.
Sequer, vou olhar para trás
ou qualquer sítio.
Sequer, vou sentir vergonha,
pois... se de quem?...
Me preencher de mim
e de meus pares,
é meu anelo,
mas estou terrivelmente vazio
de tudo.
Ou devo voltar ao espelho
e aceitar que somos
unos
e que eu sou
o outro?...
De: João Costa Filho
O homem só
O homem vazio
e a imagem dela
estava no cio
E o homem vadio
fazendo aquarela
de cores do frio
pra vê-la passar
Homem vadio
continua vazio,
continua com frios
de noites sem sombras,
sem estrelas ou luar.
O homem vazio,(vadio)
de dias pra lá
de dias pra cá
já não é tão vadio,(vazio)
mas continua com frio
e tem a tristeza,
pra lá e pra cá,
com ele morando
João Costa Filho
“The lamentations of the Poet” de Gustave Moreau
A minha solidão
me faz distante.
É feita de quedas,
de onde grito saudade
ao topo do mundo,
amargo e me fortaleço
de nada.
Se só,
tenho a enfrentar
intempéries invernais
e o macambúzio abandono
de mim.
Suspenso entre dois vazios,
penso amores,
cogito presenças,
alguma presença.
E o relógio diz,
o tempo urge,
o mundo roda,
a natureza reverbera
e, eu continuo de olhos curvos,
a pisar em estradas
estranhas de mim,
luas, sóis, estrelas,
tudo distante
não canto mais musas de amanhã.
se sou invisível,
e meus sonhos inacabados
Com quem falar
de coisdas esquecidas
se quem está,
ainda não veio...
De: João Costa Filho
A
"The sleep of reason produces monsters"
de Francisco de Goya
Sou uma procissão
de peregrinos do nada,
sem meta, sem Meca,
sem fé.
Caminhamos silenciosos,
tão silenciosos
que dá para ouvir os astros,
nossos (meus) olhos
fitos no abstrato,
vazios e alheios,
sem importar o caminho.
Penso:
tudo será o mesmo?
E ainda assim continuamos,
sem saber a força que empurra
todos os meus
átomos e células... zilhões...
E, para conter os impasses internos,
às vezes intransponíveis,
tento meditar, rezar,
me alhear mais,
mas algo tribal me contém,
por momentos,
e logo estou sem líder,
temo a revolta geral,
amotinamentos mais constantes...
Como controlar este estranho
que em mim habita?
E quando perder a razão
terei encontrado o caminho?
De: João Costa Filho
“Oh, that I had wings like a dove!...” de Lord Frederic Leighton
Há muito tempo,
bateu-me à porta,
olhou-me nos olhos,
pegou-me a mão
e pediu-me para ficar.
Sorri, e mesmo ri,
e, depois,
gentilmente, pedi-lhe
que me deixasse só.
Ela baixou a cabeça
e partiu,
triste, muito triste,
deixando um vazio sem fim
e a falta de tudo...
Desde então,
desesperadamente,
sinto urgência
em reencontrá-la...
Foi a felicidade
que mandei embora
e nunca mais a vi...
De: João Costa Filho
Trago, no centro de minha alma,
o alfabeto da vida
e o desespero de amar
pregado em mim.
As minhas inerências
reclamam reproduzir,
o querer ser querido,
ser visto, tocado, acariciado.
Minhas carnes reclamam
o fruir da vida
e a falta inumana
de não participar
dos ditames de minhas raízes,
de plantar, gozar, frutificar.
A ânsia ruim da solidão
faz de mim uma negação.
E, isso, eu não aceito!
Portanto, vou-me vestir
Quixote
e enfrentar o mundo
e moinhos de vento
e prefiro morrer
a não encontrar
minha doce
Dulcinéia.
E, não encontrando,
quero morrer,
sem que ninguém
repita meu nome.
E que não só lamentem
o desamor,
mas ali plantem
um pé de espinhos negros
da dor...
Se ninguém pode morrer
sem amor...
De: João Costa Filho
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