A
"The generous heart" de Caitlin Dundon
Um baque feio,
uma mulher, caída,
estrebuchava feio
e sangrava feio,
nas pedras da rua,
e um moço bonito,
de roupas bonitas,
ajoelhou-se ao lado dela
que, em ataque epiléptico,
contorcia-se e sangrava
sangue de pobre.
O moço bonito
se misturou
ao sangue e ao vômito,
abraçou-a,
pediu socorro
e chorou.
Eu também chorei,
porque ali estava
um quadro de rara
beleza,
de amor, de compaixão.
Um moço rico,
uma mendiga,
circunstancialmente abraçados
pelo amor.
Sei que isso
ele estava sentindo,
indiferente ao vômito,
sangue
ou às diferenças.
Somente detalhes,
ante coisa tão bonita
de se ver...
De: João Costa Filho
Tudo bem,
façamos de nossas
carências o grande mote
e distâncias encurtemos
na volta ao passado
e quimeras,
nossos antigamentes,
quando moços um dia...
Estás solita,
e eu tão sozinho
e nos agarramos
aos naufrágios de ontem
quando na verdade
revirávamos o amor o desamor
o sexo o amplexo,
com tanta competência
que hoje rio
dos novos folhetins.
Aí menina, fomos os maiorais!
tanto amor, tanta dor..
E nem por isso
foi menor...
Foi físico, poderoso
angelical, cruel,
foi literário
veio das almas
como as assombrações
necessárias
aos grandes amantes....
João Costa Filho
Meu alfabeto genético
diz-me coisas hediondas.
Está escrita, ali,
a minha herança maior,
que os dez mandamentos
inverteram, com um simples não:
- Não matarás!
- Não roubarás!
- Não estuprarás!
- Não comerás a mulher do próximo!
Estas leis faltaram-me
com o devido respeito.
Como não vou cumprir
o Estatuto do Homem
e deixar de ler, em meu DNA,
nas Escrituras,
minhas inerências?!...
Devo cometer, sim,
sem hipocrisias
e sem culpas,
e assumir o canalha vil
a mim destinado,
lá, no começo,
em meu Código Genético.
Coerência é fazer a guerra,
é destruir a Natureza,
são as armas nucleares,
os genocídios,
os das guerras e os dos políticos
profícuos em promessas odientas.
Vou assassinar todas
as crianças pálidas de fome,
roubar a rosa vermelha
da Menina do Adeus,
usar o seu Santo Nome em vão,
comer a mulher do próximo,
roubar a esperança
de quem ainda a tiver.
Roubar é a sina maior!
Vou ser, veementemente, vil,
para não envergonhar meus pares:
os heróis, os homens santos
e os políticos.
Um grande não às falsidades!
Vou acabar com a fome.
Numa catarse herodiana,
vou matar
todas as crianças nascíveis pobres,
na manjedoura...
Este é meu projeto
de fome zero...
De: João Costa Filho
“The Wheel of Fortune” de Edward Burne-Jones
Tudo é evasivo.
Do topo das montanhas,
nada contemplo
há milhões de anos,
senão almas revoltas
em mares bravios.
O céu de chumbo
contempla há mais anos
a noiva que retoca
promessas
de futuros fados,
indecifráveis.
Meninos carregando
o globo e o destino.
O profeta carregando
os incautos
por vazios evasivos
de não esperar.
A certeza
é, apenas, uma roleta
ou um dado
atirado no pano verde.
Façam o jogo,
senhores...
De: João Costa Filho
De que lugar vim,
não sei,
passado, futuro?
Com tua imagem completa
pespegada em mim
quadro, relíquia, escultura
sonho?
Mona, Juliete, Margarida, Isolda
preces de amor, saudade
Vim viver, e te vi
caminho, ventura
solidão,
a catarse...
Planejo todas as manhãs
e noites,
te encontrar
nada me realizará
senão, o dia de ti
e enquanto a lua
for quieta e lúdica,
espero acontecer.
Em tuas mãos me ponho
te proponho
e me entrego..
Para que, faça-se a luz...
João Costa Filho
“A dreamer” Caspar David Friedrich
No âmago de minha alma
tu estarás sempre.
Aqui, moras há muito,
mas quase não tens vagar.
Temo que, mesmo sonho,
um dia partas,
deixando desabitado
o vazio,
nossas conversas e
nossos carinhos
de roteiros precisos,
pois sonhos.
Se pinturas,
tenho o pincel exato.
Se esculturas,
um cinzel vivo.
Se vocábulos,
faço delicadas leituras,
tão delicadas
às almas que amam
incertezas.
E, assim,
sempre estás comigo,
como nuvens, pássaros,
rosa, sexo.
E, assim, retenho-te
indelével,
sem conhecer-te,
mas possibilito tudo,
na inesgotável capacidade
de criar, para mim,
esse mundo de nós dois,
eternamente...
De: João Costa Filho
“A dead Poet being carried by a Centaur” de Gustave Moreau
Nada posso saber
e nada sei desses crimes
de abjurações.
Talvez, crime hediondo?...
Mas deve ser ele
o culpado.
Um sujeito que beija colibris,
que carrega o mapa dos caminhos
e se perfuma nos raios de lua...
Que se banha no orvalho,
que conversa com os peixes
e os pássaros,
com avencas, dálias
e, com rosas, tira prosa...
Que usa um gafanhoto na lapela,
que assobia e sussurra
o nome Dela,
que atravessa a ponte,
para beber a água da fonte
e da sabedoria...
Que tem intimidades
com o arco-íris,
que deita e dorme
na Via Láctea,
que faz louvação
às noites estreladas,
onde a solidão é nada...
Que conhece
a linha do horizonte,
que tem os pés
em todos os rios,
que se perde no labirinto
dos sonhos,
que carrega consigo
muitas catedrais,
que fala, corretamente,
o idioma dos absurdos,
que entende, preferencialmente,
os loucos,
que é dono dos prantos
e reclamos
das coisas do amor...
Que é vizinho da dor,
que vive nas nuvens
e sabe tudo dos grilos
e dos ventos uivantes...
Que desabrochou as margaridas
e os lírios do campo...
Só pode ser ele!
(quem mais seria?...)
O poeta!
Recomendo a pena capital.
De: João Costa Filho
"Metamorphosis of Narcissus" de Salvador Dali
Viajar em mim
já não basta,
para perceber o gênero
humano.
Olho-me no espelho,
profundamente,
e sou o que nego.
Hesito em me ver,
se, ali, está e mora
tudo que condeno...
Não vou mais acusar,
não vou mais denegrir
ou dizer mal,
ou nomear vilões
ou canalhas.
Vou me abster
dessa ilicitude.
Sequer, vou olhar para trás
ou qualquer sítio.
Sequer, vou sentir vergonha,
pois... se de quem?...
Me preencher de mim
e de meus pares,
é meu anelo,
mas estou terrivelmente vazio
de tudo.
Ou devo voltar ao espelho
e aceitar que somos
unos
e que eu sou
o outro?...
De: João Costa Filho
O homem só
O homem vazio
e a imagem dela
estava no cio
E o homem vadio
fazendo aquarela
de cores do frio
pra vê-la passar
Homem vadio
continua vazio,
continua com frios
de noites sem sombras,
sem estrelas ou luar.
O homem vazio,(vadio)
de dias pra lá
de dias pra cá
já não é tão vadio,(vazio)
mas continua com frio
e tem a tristeza,
pra lá e pra cá,
com ele morando
João Costa Filho
“The lamentations of the Poet” de Gustave Moreau
A minha solidão
me faz distante.
É feita de quedas,
de onde grito saudade
ao topo do mundo,
amargo e me fortaleço
de nada.
Se só,
tenho a enfrentar
intempéries invernais
e o macambúzio abandono
de mim.
Suspenso entre dois vazios,
penso amores,
cogito presenças,
alguma presença.
E o relógio diz,
o tempo urge,
o mundo roda,
a natureza reverbera
e, eu continuo de olhos curvos,
a pisar em estradas
estranhas de mim,
luas, sóis, estrelas,
tudo distante
não canto mais musas de amanhã.
se sou invisível,
e meus sonhos inacabados
Com quem falar
de coisdas esquecidas
se quem está,
ainda não veio...
De: João Costa Filho
|
|