Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011
Denúncia


'Tender kiss' de Silva
                                                           "Tender kiss"  de Silva


Não tenho mais dúvidas.
Amanhã vou à delegacia do Homem
e vou mostrar

minha alma em frangalhos

meu corpo
flagelado e abatido
por teus beijos

tuas juras
e com tuas
impressões digitais.


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 18:34
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ADEUS, AMIGO


'Solitude' de Escha Van Den Bogerd
                                           "Solitude"  de Escha Van Den Bogerd


A prece separou-se do vento
E lírios brancos são arrancados
Para mortalhas de brisas de ontem
E prenúncio de calmaria eterna
Ontem tudo vida
Hoje tudo nada
O caos ficou na lacuna
Onde só tua presença preencheria
Mas partiste para o vácuo infinito
E um vazio tu deixaste
Adeus, Amigo.

Adeus!
E que lá para onde tu fores
A terra te seja leve
Os anjos te joguem flores
E sejas feliz no abstrato...


Homenagem ao meu Amigo Armando Segadilha Filho


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 13:25
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Quinta-feira, 16 de Junho de 2011
...

Era uma vez, o rio

 

O céu chupou o rio

o rio subiu ao céu

sem escada, sem escala

e o rio choveu

para minha vidraça

para o menino

que corre doido

atrás da menina doidinha

para a planta grave

cai a chuva no zinco

e sobe o rio

contra a correnteza

voa lépido sem asas

faz o ciclo

cai o rio, no rio

que cantava

hoje geme

e carrega o homem navio

o  homem vazio

que bebe o rio

que já foi livre

mas mata a sede da planta

mata a sede da terra

mata a sede do homem

que o mata.



publicado por jpcfilho às 17:22
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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011
Bendito fruto

Bendito fruto  

 

Eu, gnóstico, incrédulo, pragmático

aos poucos me convertendo

nos mistérios

às cousas que pouco sabia

e  onde ainda me perco.

Se uma dúvida se estabelece,

sempre que estou com ela.

Retorno-me  menino e crente,

assim tão derrepente

como o absurdo,

Que forja enlevos, encantos

E  sentimentos sobrenaturais

além de minha circunspecção...

Quando ela me toca, me abraça,

saro de todos os pecados  do mundo,

e fico pacientemente pecando com ela,

coisas de perdição,

alheio ao tempo, a idade,

apenas pecamos divinamente,

na certeza de paraíso.

Só as horas não obedecem

ao ritual do amor de luxúria

e as travessuras mil

de dois corpos loucos

de desejo, perdição e devaneios,

que se comunicam eletricamente, apenas.

de murmúrios que dizem tudo

dizem que a eternidade é ali

e ali também é  a síntese da vida

no seu apogeu

Corpo a corpo, corpo e alma fundem-se

Em metáforas de aleluia

senhas, sendas

fendas, seios,sei?

não sei,

Sei apenas que estou rezando:

que és o bendito fruto entre as mulheres

Amém...

João Costa Filho07/11/2010

 

 



publicado por jpcfilho às 21:44
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010
...

 

 

 

 

 

A dor

 

Sem auto-piedade amigo

sem comiserações se puderes

pois se tua dor é só tua

tão tua

que melhor seria contá-las às flores,

ou as estrelas

chorá-las nas montanhas,

ou dizê-las aos pássaros,

que  levarão para bem distante

teus lamentos...

Se desabafares aos amigos,

correrás riscos de os enfadares

ou os terás solidários

por ínfimos instantes...

Tua dor é só tua,

Porém, se tiveres um grande amor

daqueles cinematográficos...

Aí sim! Desabafa todas as tuas angústias,

mágoas e desgraças,

que ela chorará contigo solidária

e dividirá tuas infelicidades

e se mutilará por teu sofrimento até o cair do pano...

Por isso repito que tua dor é só tua

e não tentes injetá-la em ninguém mais

pois ela é intransmissível

 os outros têm medo da contaminação e do enfado

 assim ficarás ainda mais solitário

com Ela, Tua, e inseparável: Dor

Ela é só Tua, não a dividas, pois  ainda mais lamentarás...

 

João Costa Filho

 

 



publicado por jpcfilho às 13:35
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Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
Amor animal


La passion
                        “La passion”  de Mathias Waske


Se depender de mim,
nos despiremos de hipocrisias
e atravessaremos o mundo,
como xifópagos e
amando, despudoradamente,
por todas as metrópoles
e circunscrições.
E em nossas imoralidades
desfilaremos Kama Sutra,
Sade
e todos os malditos
da santa geometria
da gênese
e do amanhecer,
reverberando em inovações.
A cada dia, tempo
para nosso êxtase,
para a finalidade maior,
por isso, monumental.
O Guiness da indecência
é a meta!
Faremos amor
em praças públicas,
sem medo,
pois só os pecadores
nos condenarão,
só os excomungados
nos excomungarão.
Senão,
compraremos
alguma indulgência
e, a posteriori, ganharemos o reino
com a exibição circense
de nosso coito-show.
Cumpriríamos
essa missão divina,
extravagantemente,
para que nos comentassem
nos céus e nos infernos.
E todos os oceanos e
montanhas
ecoariam nosso erotismo,
essa imensa vontade de mostrar
o quanto te acho santa,
o puro animal que eu sou,
para mim
e para ti,
assim grudados
em nossas
universalidades.


De: João Costa Filho


 



publicado por jpcfilho às 05:15
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Segunda-feira, 26 de Julho de 2010
Interiores

A
'The sleep of reason produces monsters' de Francisco de Goya
    "The sleep of reason produces monsters"
                                     de Francisco de Goya



Sou uma procissão
de peregrinos do nada,
sem meta, sem Meca,
sem fé.
Caminhamos silenciosos,
tão silenciosos
que dá para ouvir os astros,
nossos (meus) olhos
fitos no abstrato,
vazios e alheios,
sem importar o caminho.
Penso:
tudo será o mesmo?
E ainda assim continuamos,
sem saber a força que empurra
todos os meus
átomos e células... zilhões...
E, para conter os impasses internos,
às vezes intransponíveis,
tento meditar, rezar,
me alhear mais,
mas algo tribal me contém,
por momentos,
e logo estou sem líder,
temo a revolta geral,
amotinamentos mais constantes...
Como controlar este estranho
que em mim habita?
E quando perder a razão
terei encontrado o caminho?


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:28
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Quarta-feira, 9 de Junho de 2010
A partida


'Remembrances' de Gerry Charm
                "Remembrances"  de Gerry Charm


Olhou seus pertences.
Com desânimo,
inventariou
algumas fotos antigas,
que diziam de amor,
algumas cartas
e bilhetes,
pálidos e amassados,
uma flor seca
em um livro velho,
e vultos,
muitos vultos.
Se alegres,
hoje, doridos.
Pegou cada coisa,
avaliou as perdas,
ouviu juras,
gritos de amor,
ouviu seu nome
dito docemente,
ouviu sons maravilhosos
e melancólicos,
por perdidos.
Saiu, bateu a porta
e, sem olhar para trás,
deixou essas perdas
com algumas lágrimas
e saiu carente,
à procura dos perdidos.
Precisava muito,
muito mesmo,

recomeçar...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 20:35
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Sábado, 15 de Maio de 2010
Alforria


'Patient lovers' de Salvador Dali
                                                  "Patient lovers"  de Salvador Dali


A saudade
visita meus olhos,
quando distante
te penso.
Você é meu céu
e meu inferno.
Tem certidão passada,
para definir
meu universo,
minha felicidade,
minha vida...
E ainda espero
cem anos
pela alforria de
minha solidão,
que também
te pertence...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 14:02
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Sábado, 17 de Abril de 2010
As palavras


'Still life with atributes of the Arts' de Jean-Baptiste Simeon ChardinA
                  "Still life with atributes of the Arts"  de Jean-Baptiste Simeon Chardin


As palavras são
o sal de minha alma,
o meu sustento externo
e de onde tiro tudo
de que preciso,
para meu deleite.
Soubesse eu melhor
usá-las ou cavalgá-las,
pouco me faltaria
para dizer-te
coisas amáveis
e outras esquecidas.
Dizê-las com pujança,
com amor,
com laivos de tristeza
ou bonomia,
a misturar nossos mundos
aos verbos e sintaxes,
solecismos, adjetivos
e teus predicados,
que me seduzem,
que me enternecem,
sempre que estás
e quando não estás...
Necessito domá-las, decodificá-las,
extrair sua essência maior,
sufragá-las em mim
e fazer-te um verso...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 19:23
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