Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
As diferenças


'The generous heart' de Caitlin DundonA
         "The generous heart"  de Caitlin Dundon


Um baque feio,
uma mulher, caída,
estrebuchava feio
e sangrava feio,
nas pedras da rua,
e um moço bonito,
de roupas bonitas,
ajoelhou-se ao lado dela
que, em ataque epiléptico,
contorcia-se e sangrava
sangue de pobre.
O moço bonito
se misturou
ao sangue e ao vômito,
abraçou-a,
pediu socorro
e chorou.
Eu também chorei,
porque ali estava
um quadro de rara
beleza,
de amor, de compaixão.
Um moço rico,
uma mendiga,
circunstancialmente abraçados
pelo amor.
Sei que isso
ele estava sentindo,
indiferente ao vômito,
sangue
ou às diferenças.
Somente detalhes,
ante coisa tão bonita
de se ver...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 13:22
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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
Quase ontem

 

 

'Amour' de Claude Theberge

 

 

Tudo bem,

façamos de nossas

carências o grande mote

e  distâncias encurtemos

na volta ao passado

e quimeras,

nossos antigamentes,

quando moços  um dia...

Estás solita,

e eu tão sozinho

e nos agarramos

aos naufrágios de ontem

quando na verdade

revirávamos o amor o desamor

o sexo o amplexo,

com tanta competência

que hoje rio 

dos novos folhetins.

Aí menina, fomos os maiorais!

tanto amor, tanta dor..

E nem por isso

foi menor...

Foi físico, poderoso

angelical, cruel,

foi literário

veio das almas

como as assombrações

necessárias

aos grandes amantes....

 

João Costa Filho

 

 



publicado por jpcfilho às 17:10
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Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009
Meu alfabeto genético

 


'Dominion' de M L Walker
                                                       "Dominion"  de M. L. Walker


Meu alfabeto genético
diz-me coisas hediondas.
Está escrita, ali,
a minha herança maior,
que os dez mandamentos
inverteram, com um simples não:
- Não matarás!
- Não roubarás!
- Não estuprarás!
- Não comerás a mulher do próximo!
Estas leis faltaram-me
com o devido respeito.
Como não vou cumprir
o Estatuto do Homem
e deixar de ler, em meu DNA,
nas Escrituras,
minhas inerências?!...
Devo cometer, sim,
sem hipocrisias
e sem culpas,
e assumir o canalha vil
a mim destinado,
lá, no começo,
em meu Código Genético.
Coerência é fazer a guerra,
é destruir a Natureza,
são as armas nucleares,
os genocídios,
os das guerras e os dos políticos
profícuos em promessas odientas.
Vou assassinar todas
as crianças pálidas de fome,
roubar a rosa vermelha
da Menina do Adeus,
usar o seu Santo Nome em vão,
comer a mulher do próximo,
roubar a esperança
de quem ainda a tiver.
Roubar é a sina maior!
Vou ser, veementemente, vil,
para não envergonhar meus pares:
os heróis, os homens santos
e os políticos.
Um grande não às falsidades!
Vou acabar com a fome.
Numa catarse herodiana,
vou matar
todas as crianças nascíveis pobres,
na manjedoura...
Este é meu projeto
de fome zero...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 13:19
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Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Evasivo


    'The Wheel of Fortune' de Edward Burne-Jones
“The Wheel of Fortune”  de Edward Burne-Jones


Tudo é evasivo.
Do topo das montanhas,
nada contemplo
há milhões de anos,
senão almas revoltas
em mares bravios.
O céu de chumbo
contempla há mais anos
a noiva que retoca
promessas
de futuros fados,
indecifráveis.
Meninos carregando
o globo e o destino.
O profeta carregando
os incautos
por vazios evasivos
de não esperar.
A certeza
é, apenas, uma roleta
ou um dado
atirado no pano verde.
Façam o jogo,
senhores...


De: João Costa Filho



 



publicado por jpcfilho às 17:56
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Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
Só você

 

 

De que lugar vim,

não sei,

passado, futuro?

Com tua imagem completa

pespegada em mim

quadro, relíquia, escultura

sonho?

Mona, Juliete, Margarida, Isolda

preces de amor,  saudade

Vim viver, e te vi

caminho, ventura

solidão,

a catarse...

Planejo todas as manhãs

e noites,

te encontrar

nada me realizará

senão, o dia de ti 

e enquanto a lua

for quieta e lúdica,

 espero acontecer.

 Em tuas mãos me ponho

te proponho

e  me entrego..

Para que, faça-se a luz...

 

 

João Costa Filho 

 

 

 



publicado por jpcfilho às 21:09
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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
Eternamente


'A dreamer' Caspar David Friedrich
                          “A dreamer” Caspar David Friedrich


No âmago de minha alma
tu estarás sempre.
Aqui, moras há muito,
mas quase não tens vagar.
Temo que, mesmo sonho,
um dia partas,
deixando desabitado
o vazio,
nossas conversas e
nossos carinhos
de roteiros precisos,
pois sonhos.
Se pinturas,
tenho o pincel exato.
Se esculturas,
um cinzel vivo.
Se vocábulos,
faço delicadas leituras,
tão delicadas
às almas que amam
incertezas.
E, assim,
sempre estás comigo,
como nuvens, pássaros,
rosa, sexo.
E, assim, retenho-te
indelével,
sem conhecer-te,
mas possibilito tudo,
na inesgotável capacidade
de criar, para mim,
esse mundo de nós dois,
eternamente...


De: João Costa Filho


 



publicado por jpcfilho às 21:35
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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
Os crimes do poeta


'A dead Poet being carried by a Centaur' de Gustave Moreau
“A dead Poet being carried by a Centaur”  de Gustave Moreau


Nada posso saber
e nada sei desses crimes
de abjurações.
Talvez, crime hediondo?...
Mas deve ser ele
o culpado.
Um sujeito que beija colibris,
que carrega o mapa dos caminhos
e se perfuma nos raios de lua...
Que se banha no orvalho,
que conversa com os peixes
e os pássaros,
com avencas, dálias
e, com rosas, tira prosa...
Que usa um gafanhoto na lapela,
que assobia e sussurra
o nome Dela,
que atravessa a ponte,
para beber a água da fonte
e da sabedoria...
Que tem intimidades
com o arco-íris,
que deita e dorme
na Via Láctea,
que faz louvação
às noites estreladas,
onde a solidão é nada...
Que conhece
a linha do horizonte,
que tem os pés
em todos os rios,
que se perde no labirinto
dos sonhos,
que carrega consigo
muitas catedrais,
que fala, corretamente,
o idioma dos absurdos,
que entende, preferencialmente,
os loucos,
que é dono dos prantos
e reclamos
das coisas do amor...
Que é vizinho da dor,
que vive nas nuvens
e sabe tudo dos grilos
e dos ventos uivantes...
Que desabrochou as margaridas
e os lírios do campo...
Só pode ser ele!
(quem mais seria?...)
O poeta!
Recomendo a pena capital.


De: João Costa Filho


 



publicado por jpcfilho às 13:45
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Domingo, 30 de Agosto de 2009
Eu e o outro


'Metamorphosis of Narcissus' de Salvador Dali
                                    "Metamorphosis of Narcissus"  de Salvador Dali


Viajar em mim
já não basta,
para perceber o gênero
humano.
Olho-me no espelho,
profundamente,
e sou o que nego.
Hesito em me ver,
se, ali, está e mora
tudo que condeno...
Não vou mais acusar,
não vou mais denegrir
ou dizer mal,
ou nomear vilões
ou canalhas.
Vou me abster
dessa ilicitude.
Sequer, vou olhar para trás
ou qualquer sítio.
Sequer, vou sentir vergonha,
pois... se de quem?...
Me preencher de mim

e de meus pares,

é  meu anelo,
mas estou terrivelmente vazio
de tudo.
Ou devo voltar ao espelho
e aceitar que somos
unos
e que eu sou
o outro?...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 19:20
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Sábado, 22 de Agosto de 2009
...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O homem só

 

O homem vazio

e a imagem dela

estava no cio

E o homem vadio

fazendo aquarela

de cores do frio

pra  vê-la passar

Homem vadio

continua vazio,

continua com frios

de noites sem sombras,

sem estrelas ou luar.

O homem vazio,(vadio)

de dias pra lá

de dias pra cá

  não é tão vadio,(vazio)

mas continua com frio

e tem a tristeza,

pra lá e pra cá,

com ele morando

 

João Costa Filho

 



publicado por jpcfilho às 15:36
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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
Solidão

 


'The lamentations of the Poet' de Gustave Moreau
“The lamentations of the Poet” de Gustave Moreau


A minha solidão
me faz distante.
É feita de quedas,
de onde grito saudade
ao topo do mundo,
amargo e me fortaleço
de nada.
Se só,
tenho a enfrentar
intempéries invernais
e o macambúzio abandono
de mim.
Suspenso entre dois vazios,
penso  amores,
cogito presenças,
alguma presença.
E o relógio diz,
o tempo urge,
o mundo roda,
a natureza reverbera
e, eu continuo de olhos curvos,
a pisar em estradas
estranhas de mim,
luas, sóis, estrelas,

tudo distante
não canto mais musas de amanhã.
se sou invisível,

e meus sonhos inacabados
Com quem falar

de coisdas esquecidas

se quem está,

ainda não veio...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 17:42
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