Não tenho mais dúvidas.
Amanhã vou à delegacia do Homem
e vou mostrar
minha alma em frangalhos
meu corpo
flagelado e abatido
por teus beijos
tuas juras
e com tuas
impressões digitais.
De: João Costa Filho
A prece separou-se do vento
E lírios brancos são arrancados
Para mortalhas de brisas de ontem
E prenúncio de calmaria eterna
Ontem tudo vida
Hoje tudo nada
O caos ficou na lacuna
Onde só tua presença preencheria
Mas partiste para o vácuo infinito
E um vazio tu deixaste
Adeus, Amigo.
Adeus!
E que lá para onde tu fores
A terra te seja leve
Os anjos te joguem flores
E sejas feliz no abstrato...
Homenagem ao meu Amigo Armando Segadilha Filho
De: João Costa Filho
Era uma vez, o rio
O céu chupou o rio
o rio subiu ao céu
sem escada, sem escala
e o rio choveu
para minha vidraça
para o menino
que corre doido
atrás da menina doidinha
para a planta grave
cai a chuva no zinco
e sobe o rio
contra a correnteza
voa lépido sem asas
faz o ciclo
cai o rio, no rio
que cantava
hoje geme
e carrega o homem navio
o homem vazio
que bebe o rio
que já foi livre
mas mata a sede da planta
mata a sede da terra
mata a sede do homem
que o mata.
Bendito fruto Eu, gnóstico, incrédulo, pragmático aos poucos me convertendo nos mistérios às cousas que pouco sabia e onde ainda me perco. Se uma dúvida se estabelece, sempre que estou com ela. Retorno-me menino e crente, assim tão derrepente como o absurdo, Que forja enlevos, encantos E sentimentos sobrenaturais além de minha circunspecção... Quando ela me toca, me abraça, saro de todos os pecados do mundo, e fico pacientemente pecando com ela, coisas de perdição, alheio ao tempo, a idade, apenas pecamos divinamente, na certeza de paraíso. Só as horas não obedecem ao ritual do amor de luxúria e as travessuras mil de dois corpos loucos de desejo, perdição e devaneios, que se comunicam eletricamente, apenas. de murmúrios que dizem tudo dizem que a eternidade é ali e ali também é a síntese da vida no seu apogeu Corpo a corpo, corpo e alma fundem-se Em metáforas de aleluia senhas, sendas fendas, seios,sei? não sei, Sei apenas que estou rezando: que és o bendito fruto entre as mulheres Amém... João Costa Filho07/11/2010
A dor
Sem auto-piedade amigo
sem comiserações se puderes
pois se tua dor é só tua
tão tua
que melhor seria contá-las às flores,
ou as estrelas
chorá-las nas montanhas,
ou dizê-las aos pássaros,
que levarão para bem distante
teus lamentos...
Se desabafares aos amigos,
correrás riscos de os enfadares
ou os terás solidários
por ínfimos instantes...
Tua dor é só tua,
Porém, se tiveres um grande amor
daqueles cinematográficos...
Aí sim! Desabafa todas as tuas angústias,
mágoas e desgraças,
que ela chorará contigo solidária
e dividirá tuas infelicidades
e se mutilará por teu sofrimento até o cair do pano...
Por isso repito que tua dor é só tua
e não tentes injetá-la em ninguém mais
pois ela é intransmissível
os outros têm medo da contaminação e do enfado
assim ficarás ainda mais solitário
com Ela, Tua, e inseparável: Dor
Ela é só Tua, não a dividas, pois ainda mais lamentarás...
João Costa Filho
A
"The sleep of reason produces monsters"
de Francisco de Goya
Sou uma procissão
de peregrinos do nada,
sem meta, sem Meca,
sem fé.
Caminhamos silenciosos,
tão silenciosos
que dá para ouvir os astros,
nossos (meus) olhos
fitos no abstrato,
vazios e alheios,
sem importar o caminho.
Penso:
tudo será o mesmo?
E ainda assim continuamos,
sem saber a força que empurra
todos os meus
átomos e células... zilhões...
E, para conter os impasses internos,
às vezes intransponíveis,
tento meditar, rezar,
me alhear mais,
mas algo tribal me contém,
por momentos,
e logo estou sem líder,
temo a revolta geral,
amotinamentos mais constantes...
Como controlar este estranho
que em mim habita?
E quando perder a razão
terei encontrado o caminho?
De: João Costa Filho
"Remembrances" de Gerry Charm
Olhou seus pertences.
Com desânimo,
inventariou
algumas fotos antigas,
que diziam de amor,
algumas cartas
e bilhetes,
pálidos e amassados,
uma flor seca
em um livro velho,
e vultos,
muitos vultos.
Se alegres,
hoje, doridos.
Pegou cada coisa,
avaliou as perdas,
ouviu juras,
gritos de amor,
ouviu seu nome
dito docemente,
ouviu sons maravilhosos
e melancólicos,
por perdidos.
Saiu, bateu a porta
e, sem olhar para trás,
deixou essas perdas
com algumas lágrimas
e saiu carente,
à procura dos perdidos.
Precisava muito,
muito mesmo,
recomeçar...
De: João Costa Filho
A saudade
visita meus olhos,
quando distante
te penso.
Você é meu céu
e meu inferno.
Tem certidão passada,
para definir
meu universo,
minha felicidade,
minha vida...
E ainda espero
cem anos
pela alforria de
minha solidão,
que também
te pertence...
De: João Costa Filho
A
"Still life with atributes of the Arts" de Jean-Baptiste Simeon Chardin
As palavras são
o sal de minha alma,
o meu sustento externo
e de onde tiro tudo
de que preciso,
para meu deleite.
Soubesse eu melhor
usá-las ou cavalgá-las,
pouco me faltaria
para dizer-te
coisas amáveis
e outras esquecidas.
Dizê-las com pujança,
com amor,
com laivos de tristeza
ou bonomia,
a misturar nossos mundos
aos verbos e sintaxes,
solecismos, adjetivos
e teus predicados,
que me seduzem,
que me enternecem,
sempre que estás
e quando não estás...
Necessito domá-las, decodificá-las,
extrair sua essência maior,
sufragá-las em mim
e fazer-te um verso...
De: João Costa Filho
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