Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005

Fardo


'Old man in sorrow' de Vincent van Gogh
          "Old man in sorrow"  de Vincent van Gogh


Sofre homem,
carrega teu fardo.
Nada a fazer.
Nada tens que fazer.
Tosse, geme, arde,
enche de ar
teus pulmões.
Viverás mais um pouco,
talvez muito...
Ainda tens talvez
de carregar
e descarregar
algumas barcaças
de dor.
Esse é teu fardo
e de mais ninguém.
Arde, tosse, geme,
homem...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 18:47
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Domingo, 30 de Outubro de 2005

De viver


'Close encounter' de Talantbek Chekirov
                                      "Close encounter"  de Talantbek Chekirov


Num momento,
um olhar ardente,
pungente, fremente,
o tocar, o abraçar,
taquicardias mil,
alguns tremores,
a garganta seca,
e a vontade de cavalgar
os corpos,
cada centímetro,
sem desperdícios,
sem perdas.
Corpo a corpo,
corpo e alma,
mãos nas mãos,
mãos em pesquisas,
tateando, tateando...
Olhos rezando,
e ouvidos zumbindo.
E a explosão...
São os encontros,
desencontros
e reencontros...
fugas, correrias
anseios, devaneios,
promessas, esperanças
mudas
e surdas
creio e descreio
sinto, amofino,
este sentimento,
danado de dor
e de amor.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 17:02
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Sábado, 29 de Outubro de 2005

O Velho


'Insomnio' de Remedios Varo
                    "Insomnio"  de Remedios Varo


O Velho
arrastando o chinelo
resmungando à toa
na casa vazia
nem escuta o silêncio
O Velho
de martelo na mão
tentando matar o tempo
que o está matando
cinzela a solidão
O Velho
recrudesce o passado
do gigante que era
de grandes conquistas
e babilônias construídas
O Velho
lembra os castelos que fez
quando sorria com vontade
e foi moço um dia
e amava de verdade
O Velho
de boca aberta
e olhos cansados
pensa saudade
lembranças toldadas
O Velho
passeia em si ontem
na cadeira de balanço
um redemoinho hoje
lembra dos filhos
onde estarão?...
O Velho
nem lembra por que fez tantos
e alimentou-os
e beijou-os
e cadê eles?
sumiram porquê?
E o Velho
resmungando à toa
de olhos vazios
de boca aberta e tino toldado
nem sabe por que ficou sozinho
cadê os meninos?...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 16:15
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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005

Ampulhetas


'Landscape with butterflies' de Salvador Dali
              "Landscape with Butterflies"  de Salvador Dali


Escorre entre meus dedos
a areia dos tempos
como na ampulheta
vai escorrendo
meu tempo de borboleta
e no planisfério
todo meu mundo
ao meu alcance
e das palavras
de meus segredos
que mesmo guardados
não são mistérios
se ali estão à mão
no planisfério
são lugares comuns
somente coisas comuns
do que guardei
tudo desnecessário
parecem ficar sempre
à distância de mim,
nesses mistérios
e planisférios.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 18:31
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005

De Heróis e Santos


'Archeological reminiscence' de Salvador Dali
                                   "Archeological reminiscence"  de Salvador Dali


Não existem heróis
nem santos.
Existem devaneios,
e projeções
de nossos sonhos...
Todos tão somente humanos
em suas qualidades
inerentes e intrínsecas
do homem
e sua humanidade,
que, ao pesar, não é muito
do que nos pretendemos,
mas apenas projetos,
sonhos desesperados
de resgatar,
mesmo que em outros,
um sentido mais nobre
para a vida,
para o homem
e sua estatura.
Se, por um momento,
perquirirmos os personagens,
veremos que
os heróis, os santos
e nós mesmos
somos de barro.
Por isso, padecemos
e dividimos
todos os bens
a nós doados,
igualmente...
A nós, aos heróis,
aos santos e aos demônios,
que nos fazem unos...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:31
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2005

Remoção


'The carnival procession' de Adrien Moreau
                                   "The carnival procession" de Adrien Moreau


Não necessito mais dos inimigos.
Creio, que vou demiti-los,
pois há muito estão perdendo
a sua substância
e a razão verdadeira
de existir
e cumprir
seu destino cinzento.
Para substituí-los,
nomearei alguns amigos.
Estes, com rara competência,
têm-se encarregado
desta tarefa
com muito desvelo,
assiduidade
e de tal forma
providentes
que não me faltam reveses
e situações incômodas,
que seriam mais afins
com os antigos titulares,
que não precisariam
usar o ardil, a traição,
pois é deles
essa prerrogativa.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:53
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Domingo, 23 de Outubro de 2005

Fugaz


'Gust of wind' de Andreas Segovia
                            "Gust of wind"  de Andreas Segovia


A vida é
irritantemente fugaz.
Quando a gente,
finalmente,
resolve fazer
coisa nenhuma
ou qualquer outra
estrepolia,
aí, ela vem
e diz
que nem para isso
tem mais tempo...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:01
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Sábado, 22 de Outubro de 2005

Eu não sou pedra


'Rocks At L´Estaque' de Paul Cezanne
                                  "Rocks at L'Estaque"  de Paul Cezanne


As pessoas que não percebem
a urgência da vida
não são pessoas,
são pedras,
pois essas têm mais tempo,
para, como pedras,
passarem dias, anos,
pacientemente...
Após muito tempo,
ainda serão pedras
e ficarão ocupando espaços
de pedras,
pois são pedras
e crescem
com os desdouros
nos escombros,
nas destruições.
Sempre crescem
e atravessam histórias
e milênios
a lagartear...
Mas eu não sou pedra
e nisso está minha apreensão
dos fatos, das cousas...
Urge, pois, precipitar.
Minha idade é de borboleta...
E não sei
nem se terei tempo de decorar meu texto.
Mas se eu fosse pedra,
aí, sim, teria tempo...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:58
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005

Nudez


'Femme nue' de Tamara Lempicka
      "Femme nue"  de Tamara Lempicka


Não tinha mais ninguém.
Pereceram lá atrás.
Seu homem escafedeu-se
por um nada.
Tiraram-lhe as bijuterias,
despiram-na toda.
Nada mais tinha de seu.
Muitos a evitavam...
Mas quando ia dramatizar,
por absoluta solidão,
uma voz lhe disse:
"Menina,
ainda tens tua Nudez..."
Então, ela desnudou-se,
completamente...

Outro dia eu a vi.
Já ostentava um meio sorriso...
E, sabes?... achei-a bastante sensual...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 17:14
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2005

Chove lá fora


'Plaza after the rain' de Paul Cornoyer
                      "Plaza after the rain"  de Paul Cornoyer

A quem vou dizer
que chove
ou que luna?
Como falar
do escorregar do rio
ou da música do vento
nos canaviais?
Para quem dizer
dos projetos do homem
e de suas conseqüências
e do amor e da dor?...
A quem dizer da sombra
que me falta
e de outras
que me perseguem?
A quem explicar
do meu reflexo
que não reflete?...
Chove lá fora,
mas não tenho
a quem dizer:
Chove lá fora...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:42
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