Sexta-feira, 31 de Março de 2006

Do fundo do baú (19)


'Destiny' de Jacek Malczewski
                                                      "Destiny"  de Jacek Malczewski


Dúvidas *

Carregamos, da vida, as dúvidas
do que traz,
do que leva,
do quem trouxe,
aonde, quem vai levar...
Da esfinge, o seu enigma, quem decifrará?
Do sentido da vida, o mistério,
quem desvendará?
A ciência, a matemática ou o acaso?
As metáforas e o maniqueísmo:
do bem e do mal,
do feio e do bonito,
do certo e do errado.
A certeza, a vera certeza
já não põe mesa,
porque tudo é relativo. Tudo!...
Inclusive a morte.
Então, meu irmão,
para que tanta frescura,
se, ao dormires, estás morrendo
um pouco,
se a mão que afaga
é a mesma que apedreja?
Se do mundo nada se leva,
para que tanta empáfia,
se não sabes nem
o que te espera
daqui a um minuto
e em pouco tempo
tudo vira barro?...


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação - 13 de Dezembro de 2005



publicado por jpcfilho às 20:45
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Quinta-feira, 30 de Março de 2006

Do fundo do baú (18)


'Rising Fenix' de Toon Diepstraten
        "Rising Fenix" de Toon Diepstrate


Matar a saudade *

Para matar a saudade,
fui espantar os ventos
de agonia e de dor
que invadem o corpo e a alma
e, num tormento,
acorrentam-me
às tristezas do desamor.
Por matar a saudade,
quebrei vitrais de sonhos
e interiores
combalidos de esperanças
e de mendigo orgulho
à mão estendida.
E, no olhar, a prece,
a espera do milagre
e redenção...
Por matar a saudade,
saí da vigília
e fui à luta, só para te ver,
mas não aconteceu...
E fico perdido,
por não saber do acontecido,
além de perder-te.
Mas, por matar a saudade,
descobri
que não pode ser ferida,
se, como Fênix,
renasce todo o dia
e noite,
para alimentar-se
de mim...


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação - 25 de Novembro de 2005



publicado por jpcfilho às 20:33
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Quarta-feira, 29 de Março de 2006

Do fundo do baú (17)


'L'incertitude du poète' de Giorgio de Chirico
         "L'incertitude du poète"  de Giorgio de Chirico


Ser poeta *

As mensagens poéticas
passeiam em mim
e se reproduzem
e me deixam tonto.
Só passeiam,
pois eu não as traduzo
nem as entendo,
mas sinto
um turbilhão de emoções,
como se poeta fosse
e, em só sentindo,
me aflige a ansiedade
de não poder, como os poetas,
ler e desvendar os mistérios
que habitam as entrelinhas.
Mas me sinto displicente
nessas pungentes metáforas
que a mim tocam,
me faltando a exegese
para os contraditórios
desse latifúndio.
Embora não entendendo, sinto!...
E me regalo nessas esfinges
poéticas.
Por isso, digo baixinho
e desconfiado:
Então, também sou poeta?!...
Mas não entendo...
Só sinto!...
E, como sinto,
sinto muito...


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação - 3 de Novembro de 2005



publicado por jpcfilho às 20:21
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Terça-feira, 28 de Março de 2006

Do fundo do baú (16)


'Archeological reminiscence' de Salvador Dali
                                     "Archeological reminiscence"  de Salvador Dali


De Heróis e Santos *

Não existem heróis
nem santos.
Existem devaneios,
e projeções
de nossos sonhos...
Todos tão somente humanos
em suas qualidades
inerentes e intrínsecas
do homem
e sua humanidade,
que, ao pesar, não é muito
do que nos pretendemos,
mas apenas projetos,
sonhos desesperados
de resgatar,
mesmo que em outros,
um sentido mais nobre
para a vida,
para o homem
e sua estatura.
Se, por um momento,
perquirirmos os personagens,
veremos que
os heróis, os santos
e nós mesmos
somos de barro.
Por isso, padecemos
e dividimos
todos os bens
a nós doados,
igualmente...
A nós, aos heróis,
aos santos e aos demônios,
que nos fazem unos...


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação - 27 de Outubro de 2005



publicado por jpcfilho às 20:52
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Segunda-feira, 27 de Março de 2006

Do fundo do baú (15)


'The old guitar player' de Pablo Picasso
      "The old guitar player"  de Pablo Picasso


Exegese *

Nunca juntou à sua música
uma só palavra
de explicação da poesia.
Ia tocando, cantando
e mesclando o dia com a noite,
como se nunca fosse parar.
Não se interrompeu, sequer,
na transição dos movimentos
ou dos cantos dos pássaros...
Não se interrompeu, sequer,
para explicar os sonhos
ou para contradizê-los.
Mas nem todos os sonhos
são contraditórios.
Muitos são a essência da alma
e só realizáveis como sonho,
por isso são sonhos...
E, para entendê-los,
são necessários os intérpretes
que são decifradores
e livres na sua exegese,
que não é menos complicada
do que a dos sábios
ou dos poetas.


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação - 15 de Outubro de 2005



publicado por jpcfilho às 20:37
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Domingo, 26 de Março de 2006

Um pequena insinceridade


'Rebirth' de Genggu Liu
"Rebirth"  de Genggu Liu


Muitas coisas nós nem temos coragem de contar por aí, assim de repente, e nem de caso pensado, pois sempre corremos o risco de sermos mal interpretados ou, mesmo, de sermos chamados de mentirosos, ali, na bucha. Por isso, nesse mundão, de vez em quando, evito contar alguns causos fantásticos, mas, se a vida é em si fantástica... E nunca ninguém interpretou nadica de nada de seu sentido ou qual a missão verdadeira do homem, e coisas de Deus ou do diabo, e religiões, e mulas sem cabeça... Eu, de minha parte, não acredito em nada nem sou supersticioso, mas, por via das dúvidas, evito transgredir tais regras, pois nunca se sabe...

Pois bem, certo dia, e lá se vão alguns anos, eu estava chegando de uma viagem de Curitiba e, na rodoviária do Rio de Janeiro, na hora em que estava acenando para um táxi, assim, meio esquisito, ouvi uma voz, falando baixinho, bem atrás de mim:

- Mas, Deus do céu, jamais poderia imaginar... Você, depois de tantos anos?!...

Olhei a criatura e levei um bom tempo para me concentrar o bastante no reconhecimento e, mesmo assim, fiquei na dúvida. Calado, parei a olhar, esperando uma identificação mais segura, quando ela, meio assustada ou meio envergonhada, sei lá!, também um pouco indecisa, falou:

- Pedro, sou eu, a Denise. Lembra-se?... Fomos colegas e quase namoradinhos, no colégio. Puxa! Você não mudou nada, se não fosse uns dois cabelos brancos!...

Fiquei petrificado, pois aquela criatura, envelhecida, prematuramente, e esfacelada, sei lá por quantos sofrimentos e andanças, não poderia ser nunca a deusa de meus sonhos, a rainha dos calouros, a mais cobiçada criatura de meus tempos de estudante... Nossa!... Ela estava, simplesmente, assustadora... Aí, me bateu que ela tinha notado minha decepção, quando ela confirmou, na horinha:

- Acho que te assustei. Será que estou tão velha e feia, assim?... Pela tua cara, já dá até para notar que sim. Terei mudado tanto?...

E como eu ia disfarçar uma situação daquelas, que, como ela mesma dizia, estava estampada em mim? E o pior é que eu sentia até mau cheiro, sei lá de onde vinha, se de seu hálito, sei lá!... Nem queria pensar a não ser numa resposta rápida. Então, falei, com a maior cara de pau:

- Olha, né nada disso, não. Tu estás bonita, como sempre, aquela moça linda que encantava todo o colégio e nossa cidadezinha. 'Inda és a querida e linda Denise de meus amores...

Penso que disse mais algumas mentiras e menti, e menti muito.
Estava mentindo, sem parar, até que aconteceu algo estranho, um barulho, um tropeção, uma luz não sei dizer exatamente como. Fiquei meio cego com a claridade, coloquei a mão nos olhos e esperei a luminosidade passar...
E foi passando e meu entendimento foi complicando, pois, ali, no lugar daquela mulher quase pasmosa, reapareceu a antiga Denise, só que um pouco mais velha, linda, madura, segura, que me olhou bem nos olhos e, com lágrimas doces e uma expressão de infinita gratidão, beijou-me o rosto e me disse:

- Obrigada, Pedro. Acabaste de me salvar!!!

Fiquei, ali, petrificado, e ela, com um sorriso de ressurreição, foi sumindo no meio da multidão da rodoviária...



De: João Costa Filho



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Sábado, 25 de Março de 2006

As horas


'The passage of Time' de Gilbert Michaud
                                           "The passage of Time"  de Gilbert Michaud


Todas as horas
me apressam,
em meu tempo não tardo.
Tento agarrá-las...
Nascem outras horas.
É tarde,
para recomeçar
o que, lá atrás,
não disse das horas
que correm,
velozes,
contra mim.
Meu tempo,
apenas olho
e não posso segurá-lo.
Ninguém pode!
Nem o rei
nem a menina do adeus
das horas,
nem o que pensa que é
dono dele.
As horas não são de ninguém!
Nem minhas
nem das horas,
que já são outras...


De: João Costa Filho



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Sexta-feira, 24 de Março de 2006

Meu entendimento


'Oedipus and the Sphinx' de Francois-Xavier Fabre
                                 "Oedipus and the Sphinx"  de François-Xavier Fabre


Amargo o dia
de meu entendimento
de nada entender.
Arguo, em sábias fontes,
respostas convincentes
e definitivas,
para meus questionamentos
simples,
se sou um homem simples,
de saber comum,
mas com vontade
de entender alguns
enigmas,
coisas corriqueiras:
a vida, a morte,
entender o homem,
entender-me,
poder olhar o espelho
e declinar essas filosofias,
sem muita erudição,
mas de instruções corretas,
tim-tim por tim-tim,
falar do amor
que amo
e desfilar dicionários
de versos líricos,
até me enternecer
e, ainda, sem compreender
nada de nada,
quero viver muito
e amar muito mais...


De: João Costa Filho



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Quinta-feira, 23 de Março de 2006

As palavras


'Still life with atributes of the Arts' de Jean-Baptiste Simeon Chardin
                  "Still life with atributes of the Arts"  de Jean-Baptiste Simeon Chardin


As palavras são
o sal de minha alma,
o meu sustento externo
e de onde tiro tudo
de que preciso,
para meu deleite.
Soubesse eu melhor
usá-las ou cavalgá-las,
pouco me faltaria
para dizer-te
coisas amáveis
e outras esquecidas.
Dizê-las com pujança,
com amor,
com laivos de tristeza
ou bonomia,
a misturar nossos mundos
aos verbos e sintaxes,
solecismos, adjetivos
e teus predicados,
que me seduzem,
que me enternecem,
sempre que estás
e quando não estás...
Necessito domá-las, decodificá-las,
extrair sua essência maior,
sufragá-las em mim
e fazer-te um verso...


De: João Costa Filho



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Quarta-feira, 22 de Março de 2006

A Mãe Terra


 'Earth Mother' de Sir Edward Coley Burne-Jones
"Earth Mother"  de Sir Edward C. Burne-Jones


Alimento-me da Terra
e dela sou alimento.
Sou o barro,
sou a pedra,
sou a lama,
sou o chão...
Sou sua composição!
Minha Mãe Terra,
a cada instante,
convida-me à volta.
Devo ser
um mau filho,
se dela tenho medo,
tenho pavor,
tenho horror
(não é segredo)
de voltar,
definitivamente,
ao seu seio,
de me enterrarem
nas minhas origens...


De: João Costa Filho



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