Domingo, 30 de Abril de 2006

Judas


'The wanderer' de Caspar David Friedrich
“The wanderer”  de Caspar David Friedrich


Não sei como descrever o pesadelo em que me encontro. Não existem palavras no dicionário, por mais medonhas e odientas, que descrevam o meu estado de espírito, o que sinto pela minha pobre alma, já danada no inferno, já carregando a cruz de meu abismo. Não sei para onde ou para quem apelar. Não sei de nada nem de como resolver esta situação miserável que está acabando comigo, e se Deus prover, que acabe logo com sofrimento tão grande.
Penso em Judas, mas é pouco. Os atos que cometi... Nem eu mesmo acredito, justo eu que sempre pautei minha vida com observância pelas leis, o bem comum e a vontade de viver minha vidinha do melhor modo possível e, no entanto, em pouco tempo, muito pouco tempo, cometi todas as atrocidades e crimes odiosos que um homem pode praticar.

Tudo começou com um telefonema de um amigo de juventude, o Ernani, um sujeito bom, de boa índole, honesto, amigo. Aliás era o melhor amigo que jamais tive e comungávamos dessa opinião, mas, por conta de nossas profissões, estávamos morando em cidades diferentes e já fazia uns três anos que a gente não se falava. Aí, ele me ligou e me convidou para passar uns dias em sua casa, pois tinha casado com uma linda e inteligente mulher, a quem amava de paixão e com quem era feliz a ponto de estourar. Era o próprio Romeu, só que o nome dela era Helena...

Arranjei uma folga e fui cumprir o prometido de passar uns dias com o amigo irmão. Fui recebido com festa e muita alegria, logo no aeroporto, onde já me esperava o casal maravilha, Ernani e Helena.
Já aí começou tudo. Quando olhei pela primeira vez para a esposa de meu amigo, senti um calafrio no estômago, uma sensação de vidro arranhando meus nervos. Fiquei inquieto e percebi que estava apaixonado, logo na primeira hora e, só de pensar, já suava, mesmo o clima estando ameno. Para completar e piorar as coisas, ela também me olhava de uma maneira inquestionável, ela estava me comendo com os olhos. Mais frio e mais calafrios de vidros nos nervos.
Fui disfarçando o que dava. Nos bate papos, nas refeições, tentava sempre falar o mínimo possível com Helena, mas, por mais que fizesse, ela ia tomando conta de mim e eu me esforçava mesmo para sair daquela situação, sem cometer desatinos. Quando se afigurava uma situação de ficarmos a sós, eu cuidava de me retirar e, numa dessas alturas, ela me agarrou no braço e me falou, peremptoriamente:
- Não adianta fugir de mim. Fomos feitos um para o outro. Quanto mais adiarmos, pior será.
Ao que eu respondi:
- Pelo amor de Deus!... O Ernani é o único amigo verdadeiro que tenho.
Ela me puxou e me beijou e eu correspondi, com paixão avassaladora, sem controle.
Logo nessa noite, já estávamos fugindo, como dois criminosos que éramos. E eu me sentia um Judas, mas não conseguia dizer-lhe que não...

E vivemos uns tempos de amor intenso, de corpo e alma, muito sexo, muito desespero, muito ciúme. E assim vivíamos aquele amor doentio e cheio de culpas.
Do Ernani, soube que, depois de partirmos, passou a beber muito, ao ponto de perder o emprego, a casa e que tomara rumo ignorado.

Nosso amor, nossa convivência era difícil, mas ficou ainda pior quando ela adoeceu e, no espaço de uma semana, morreu, assim, de repente, de leucemia. Grande foi meu desespero. Depois de todas as desgraças que cometera, agora perdia o motivo de viver, perdia a minha paixão, a mulher que me tornara o último dos homens. Morrera meu único amor.

No dia do enterro, reconheci em um mendigo que, um pouco distante, rezava baixinho, o Ernani. Fiquei petrificado, mas já não sentia nada: nem vergonha, nem medo, nem pudor... Nada! Então fui até ele e perguntei:
- Como vai, Ernani?...
Ele ficou me olhando uma eternidade, sem me responder, mas, por fim, falou:
- Não tenho mágoa de você, amigo. Sei o quanto está sofrendo, pois já passei por esta perda, quando você a levou...
Ao que eu retruquei:
- Pelo amor de Deus, me perdoa. Mais nada que me disser vai me ofender, pois sei que mereço. E mais: a minha dor não dá para ser superada por nada que possa dizer!
Ele me olhou, novamente, e demorou mais de cem anos para falar:
- Não devias sofrer tanto, pois que a Helena já me traía. Antes de chegares, ela estava me traindo com o Paulo Figueredo. Na verdade, te pedi para vires a minha casa, porque eu estava desesperado de dor e pensei que me ajudarias, mas deu no que deu...

Senti todas as assombrações do mundo e percebi que minha alma ainda nem estava começando a sofrer. E meus nervos ficaram estraçalhados. E minha cabeça estava explodindo, com aquela revelação, pois era a revelação mais monstruosa que alguém poderia conceber, se, no caso, fosse vingança, mas senti que não era, e senti coisa ainda mais terrível, pois Paulo Figueredo nos encontrara na cidade onde morávamos e freqüentara nossa casa, assiduamente, e eu até fizera algumas cenas de ciúmes, pois percebia que havia algo entre os dois, algo criminoso...
Cego como estava de raiva, de vergonha, de tantos sentimentos ruins que nem dá para definir, dei meia volta e olhei em direção à sepultura e o vi, ali, ajoelhado e chorando, com uma rosa vermelha na mão, oferecendo àquela que eu pensava ter sido minha Helena.
Caminhei decidido em direção ao canalha e fiquei, ali, postado, até ele dar conta de mim e me olhar.

Descarreguei meu revólver em cima dele e não errei nenhum tiro...


De: João Costa Filho




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Sábado, 29 de Abril de 2006

O dado


'The dice players' de Georges de La Tour
                                              “The dice players”  de Georges de La Tour


Um cubo.
Seis lados,
em correta arquitetura,
atirados.
Alea jacta est!
Atravessaste
o rubicão.
Te aguarda
o garrote vil
ou o “happy end”.


De: João Costa Filho




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Sexta-feira, 28 de Abril de 2006

Nuvens e ventos


'Approaching thunder storm' de Martin Johnson Heade
                                   Approaching Thunder Storm”  de Martin Johnson Heade


Ventos ventando
nuvens movendo
gente ficando
gente vivendo
lua brilhando
sol aquecendo
gente sonhando
gente sofrendo
vida fluindo
tempo escoando
gente partindo
e não mais voltando
ventos ventando
nuvens movendo
gente enfrentando
gente temendo
meu pai pescador
a água sulcando
com remos de dor
até quando?... até quando?...
ventos ventando
nuvens movendo
ondas rolando
distância crescendo
saudade ficando
e doendo... doendo...


De: João Costa Filho




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Quinta-feira, 27 de Abril de 2006

És tudo


'Reclining Beauty' de Hans Zatzka
                                                  “Reclining Beauty”  de Hans Zatzka


O teu olhar
é tão encantado
e moleque...
O teu corpo é tão,
profanamente, devasso...
O teu sorriso
de convites de amanhãs...
Nos teus requebros,
a reverberação...
Tanto encantamento,
que me assusto!
Por isso,
quero te tocar,
levemente,
como uma brisa
a passear em tua
geografia de
lagos, montes, cordilheiras,
rios, atalhos
e desnudar teus seios
de todas as manhãs
e beijar teus lábios
de maçã, de vida...
Inaugurar-te “forever”
e todos os dias
e noites
serão estréias
de mim,
de ti...
Sempre começando,
estarei aos teus pés,
em uma oração sem fim.
Tu és tudo! Amém...


De: João Costa Filho




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Quarta-feira, 26 de Abril de 2006

Evasivo


    'The Wheel of Fortune' de Edward Burne-Jones
“The Wheel of Fortune”  de Edward Burne-Jones


Tudo é evasivo.
Do topo das montanhas,
nada contemplo
há milhões de anos,
senão almas revoltas
em mar bravio.
O céu de chumbo
contempla há mais anos
a noiva que retoca
promessas
de futuros fados,
indecifráveis.
Meninos carregando
o globo e o destino.
O profeta carregando
os incautos
por vazios evasivos
de não esperar.
A certeza
é, apenas, uma roleta
ou um dado
atirado no pano verde.
Façam o jogo,
senhores...


De: João Costa Filho




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Terça-feira, 25 de Abril de 2006

Só uma alma


'La belle Dame sans merci' de Sir Frank Dicksee
                                     “La belle Dame sans merci”  de Sir Frank Dicksee


Ah!... Como está doendo
uma ferida aberta,
mais do que o tempo,
às dúvidas que me impuseste,
com teu comportamento
leviano,
pois se, já de tempos,
fizeste-me juras,
promessas utópicas
e, agora, dispensas
tudo o que dizias
com palavras,
promessas e fantasias
de tais prestezas,
que me acomodava
às sutilezas
partidas.
E, assim, está doendo
a dor do tempo
perdido,
hoje, dia a dia,
a fragmentar este homem,
enquanto outra alma ri,
que sofrer
é o extremo
de uma das almas:
A minha...


De: João Costa Filho




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Segunda-feira, 24 de Abril de 2006

Teu olhar


'Water willow' de Dante Gabriel Rossetti
                               “Water willow”  de Dante Gabriel Rossetti


No silêncio de teu olhar,
li as palavras necessárias
à transformação do mundo,
promessas às minhas
pretensões de horizontes.
No silêncio de teu olhar,
li as boas novas,
quando, naquela tarde,
desmistifiquei
minha solidão,
que te pertencia.
No silêncio de teu olhar,
vi mistérios insondáveis,
mundos novos.
Oceanos desconhecidos
guardavam teus olhos,
onde, agora, navego,
ao sabor de tuas
modulações
benditas.
Bendito teu olhar,
que me diz mais
que mil palavras!
Bendita tua retina,
que fotografou
minha alma.
Amém!...


De: João Costa Filho




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Domingo, 23 de Abril de 2006

Os olhos de Juliana


'Brazilian forest' de Martin Johnson Heade
“Brazilian forest”  de Martin Johnson Heade


Já estava naquela selva há mais de dez horas e nada de achar absolutamente nada. Parecia coisa de feitiço, assombração ou coisa que o valha... Sei lá!... O sofrimento não tinha fim, pois, apesar de parecer pouco tempo comparado com alguns perdidos de selva, naquele período eu tinha passado por tudo quanto era ruim no mato. Subira encosta, atravessara mato fechado, riachos, sendas, veredas, tinha matado umas cobras, duas ou três, não tenho a certeza, e, ainda mais, acho que uma chegou a me picar. Já tinha visto rastro de onça (bicho de que eu tinha o maior pavor), estava morrendo de sede e de fome, e, ainda por cima, estava sendo atacado por hordas de mosquitos de todas as espécies e tamanhos, e a esses acho que não sobreviveria, pois os insetos atacavam vorazmente, com a notável intenção de me comerem inteiro... E, como se não bastasse, esses bichinhos se revezavam em turnos, nunca da mesma espécie, e iam trocando turnos e acabando comigo ou com o que restava de mim. Estava também ferido, arranhado de muitos espinhos, flagelado, cheio de dores e com os lábios gretados pela sede e martirizados pelo suor intenso, que o calor fazia escorrer pelo meu rosto. Enfim, tinha a certeza absoluta de que daquela não escaparia com vida.

Mas tudo isso aí me aconteceu por conta de minha interminável paquera e daquela procura sem fim do grande amor, da mulher perfeita, da rainha de minhas lucubrações...
E, assim, foi que, estando eu em uma lojinha de interior, em uma cidade pequena, Murietá, ali nas Minas Gerais, quando, de repente, vejo aquela que era o fim de toda a minha procura, a configuração da mulher ideal, o meu sonho de mil anos personificado em carne e osso, ali, bem na minha frente. Nada no mundo, nenhuma mulher do mundo, mesmo que em qualquer revista, se lhe comparava. Esta, realmente, era inigualável.
Fiquei muito aturdido. Nunca fui tímido, mas estava paralisado. A mulher a dois passos de mim, me olhando com o sorriso mais lindo e indecifrável desse planeta Terra e eu sem palavras, tímido. Esse não era eu!... Mas logo ela, quebrando aquela muralha, me cumprimentou, perguntou meu nome, perguntou se eu era dali, ao que fui respondendo, cheio de encantamento. Nem parecia eu... Fui entrando na conversa e, com pouco, já estava para lá de apaixonado por aquela deusa, aquela pintura máxima. Convidei-a para lanchar e trocámos mais algumas informações recíprocas, de onde vim a saber que ela morava ali, atrás daquela montanha que a gente via. Não parecia longe, tanto que, quando ela se despediu e me deu as coordenadas de como chegar lá, achei que, mesmo tendo de ir a pé e pela floresta, seria café pequeno, diante de tão maravilhosa prenda. Disse-me, ainda, que sua mãe era uma espécie de feiticeira ou espírita... sei lá!... ou as duas coisas e que estariam ali cumprindo um retiro, e que eu não deixasse de aparecer...

E eu fui atravessar toda aquela carreada de imprevistos, de sofrimentos que estavam me levando à morte. Nunca, em minha vida, imaginara passar por tantas provações, em tão pouco tempo. Só quem sabe de matos e florestas entende bem do que estou falando...
E como fui me meter numa encrenca daquela?!... Afinal, a mulher não era tão bonita assim. Aquela desinfeliz aparecera só para esta armadilha. Ainda bem que não a encontrei!... Mas como pude me enfeitiçar?...
Eu tinha a certeza de que minha hora tinha chegado. As forças já me faltavam. Não tinha nem coragem para me levantar. Meus olhos enxergavam menos. Já achava que a morte deveria vir logo me tirar daquela agonia sem fim, quando me pareceu vislumbrar um par de olhos tão maravilhosamente castanhos, lindos, suaves... Santos olhos!... Eram aqueles olhos que me acordavam todos os dias e ainda tinha aquela boca com palavras de mel, que me encorajavam para a vida. Era um milagre! Estava vendo, naquele inferno, a minha Juliana, a minha doce Juliana. Oh! meu Deus, que saudade de minha amada mulher... Pelo menos, vou morrer com pensamentos para ela, pois é ela quem me ama, de fato. É ela, sim! E por que só agora estou entendendo isso?!...

Penso que, entretanto, desmaiei e, pouco tempo depois, uma equipe que saíra para me procurar me encontrou.
Jamais olharei para outros olhos...


De: João Costa Filho




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Sábado, 22 de Abril de 2006

Inerte


“Gentleman lounging in a chair” de Carle Vanloo
                                  “Gentleman lounging in a chair”  de Carle Vanloo


Uma espécie
de encanto
e espanto
materializa
o inerte,
num espaço
lúdico
de uma vida esquecida
e carente
das espécies
e do encontro,
que se repete,
mas não satisfaz
a ambição irreal
ou fugaz,
mas infinita de si
e de outros...


De: João Costa Filho




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Sexta-feira, 21 de Abril de 2006

Estás em tudo


'A water idyll' de Hans Zatzka
                                                  “A water idyll”  de Hans Zatzka


Em cada nuvem, estás...
Em cada árvore, estás...
Nas estrelas,
nas ondas do mar
e a passear nos rios.
És a representação
de tudo:
do que se move
e do inerte.
És o passarinho que canta,
com as asas espalmadas,
a alma que alevanta
os versos,
os reversos.
És a primeira manhã.
És todas as manhãs.
Nada é concebível,
sem tua presença,
sem tua voz,
sem
o desenho incrível
que és,
que me sufoca...
Irresistível brasa,
em mim,
gravada em mim...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:01
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