Quarta-feira, 31 de Maio de 2006

Do fundo do baú (37)


'Trail of serenity' de Tim Sorsdahl
                                "Trail of serenity"  de Tim Sorsdahl


Poemas maiores *

Poemas menores esperam
idade, para saberem
das coisas maiores da vida...
Para, quando grandes poemas,
descreverem
coisas pequenas
e perdidas...



De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 26 de Outubro de 2005



publicado por jpcfilho às 21:23
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Terça-feira, 30 de Maio de 2006

Do fundo do baú (36)


'The carnival procession' de Adrien Moreau
                                   "The carnival procession" de Adrien Moreau


Remoção *

Não necessito mais dos inimigos.
Creio que vou demiti-los,
pois, há muito, estão perdendo
a sua substância
e a razão verdadeira
de existir
e cumprir
seu destino cinzento.
Para substituí-los,
nomearei alguns amigos.
Estes, com rara competência,
têm-se encarregado
desta tarefa
com muito desvelo,
assiduidade
e de tal forma
providentes
que não me faltam reveses
e situações incômodas,
que seriam mais afins
com os antigos titulares,
que não precisariam
usar o ardil, a traição,
pois é deles
essa prerrogativa.


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 25 de Outubro de 2005



publicado por jpcfilho às 21:40
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Segunda-feira, 29 de Maio de 2006

Do fundo do baú (35)


'Femme nue' de Tamara Lempicka
      "Femme nue"  de Tamara Lempicka


Nudez *

Não tinha mais ninguém.
Pereceram, lá atrás.
Seu homem escafedeu-se,
por um nada.
Tiraram-lhe as bijuterias,
despiram-na toda.
Nada mais tinha de seu.
Muitos a evitavam...
Mas, quando ia dramatizar,
por absoluta solidão,
uma voz lhe disse:
"Menina,
ainda tens tua Nudez..."
Então, ela desnudou-se,
completamente...

Outro dia eu a vi.
Já ostentava um meio sorriso...
E, sabes?... achei-a bastante sensual...


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 21 de Outubro de 2005



publicado por jpcfilho às 21:13
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Domingo, 28 de Maio de 2006

Sombra


'Sunlight and shadow' de Albert Bierstadt
                         “Sunlight and shadow”  de Albert Bierstadt


Sou sombra.
Há bilhões de anos,
carrego o destino
de amoldar-me,
geometricamente,
às capilaridades gestuais
de mímica perfeita.
Espalho-me, com aritmética
precisão,
em desvãos, buracos,
saliências, escadas...
Sou um assustador
opaco espectro
de mim mesmo.
Componho todas as figuras
sólidas ou líquidas,
as que se dividem,
as que se multiplicam,
a cada nano-segundo,
na precisão imprecisa
de ser sombra
e caminhar, cavalgar,
ser projetada
em paredes,
ou da janela de trem,
de pirâmides, catedrais,
de colossos ancestrais
ou sobre a enigmática
Mona Lisa.
Sou noturna ou diurna.
Dependo da luz
ou da dúvida,
onde também sou sombra...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:39
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Sábado, 27 de Maio de 2006

Quem...?


'Thinker' de Mikhail Nesterov
                                 “Thinker”  de Mikhail Nesterov


Não me imponham fantasias
nem me falem de Aves e Marias.
Não me falem de Deuses
astronautas
ou de contrapartidas celestes,
políticas corretas
ou de rezas certeiras.
Não me digam que
melhores dias virão,
para todos.
Quem serão?...
Todos os meus?... Os seus?...
Quem rezará por quem?
Quem pegará da estante
um último livro sagrado,
e salvará um destino?
Quem ajudará um menino
e a mão do irmão
na hora do adeus?
Quem, em madrugadas frias,
disponibilizará um cobertor
e aquela palavra de amor?
Quem aliviará mágoas
transcendentais ao homem?
Quem matará a fome
e, em um gesto simples,
se despirá, publicamente,
e mostrará ser igual,
sem adjetivos apropriados,
sem a universal afetação
de ser íntegro?
Quem, antes da morte,
não chamará seu Santo Nome
em vão?
Quem se atreverá a banir
de seu ego a vaidade nata?
Quem, por um momento,
não perderá uma vida,
antes de se perder?
Quem levará uma flor
ao túmulo do condenado?
Quem, num único gesto,
jurará amor verdadeiro
à menina perdida?...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:53
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Sexta-feira, 26 de Maio de 2006

Aqueles olhos


'Her eyes are with her thoughts' de Sir Lawrence Alma-Tadema
                        “Her eyes are with her thoughts”  de Sir Lawrence Alma-Tadema


Nos olhos, espelhos
molhando o infinito,
uma luz intensa
iluminava um adeus.
Olhos de dor
falam todos os idiomas,
dizem tudo de sofrer
de amor.
Olhar aqueles olhos
é integração,
é abandonar-se
e participar de danos
pungentes e amargurados.
Olhar aqueles olhos
é sentir
os nervos da alma
arranhados em cacos
e cair num abismo
que não é teu,
nem o adeus é teu,
mas é tua a condenação
de sofrer por aqueles
olhos
que não te vêem...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:19
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Quinta-feira, 25 de Maio de 2006

De viver e...


'Le destin' de Henry Siddons Mowbray
                                                                       “Le destin”  de Henry Siddons Mowbray


Deram-me a vida,
sem me consultar.
Nem perguntaram
por minhas preferências
e, agora, me cobram
a volta.
Não sei de onde vim.
Menos, para onde vou.
Sei que não sei,
mas a validade é curta.
Não sei o que fazer
de meu ódio
ou de meu amor
e os meus planos
mal me dão tempo
para apreciar o viver
ou desvendar os mistérios
inerentes,
ou falar de tristezas,
ou convidar uma rosa
para fazer um verso,
ou escutar uma sinfonia
inteira...
Não tenho quase nada,
nem de posses,
nem de saber,
nem saber do amanhã.
Nunca tive
um grande amor
e, ainda assim,
sinto apego.
Também sinto indícios
de remoção.
Novamente, sem me consultar,
sem dizer o epílogo
ou dizer para onde
ou quando...


De: João Costa Filho



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Quarta-feira, 24 de Maio de 2006

As noivas


'Death the Bride' de Lucien Lévy-Dhurmer
                                           “Death the Bride” de Lucien Lévy-Dhurmer


E a noiva de branco
abandonou um quase
cadáver, no altar
quase, por palidez
de prenúncios
macabros.
Ali, estava um homem
sem pensamentos,
de idéias fugidias,
de porte cabisbaixo,
de amanhã turvado
por aquele destino
ruinoso
de, ali, naquele momento,
ter decidido,
- aliás, já há muito decidira -
que, sem ela,
preferia a morte.
Então, ela, a outra noiva,
de negro,
esperava.
Ele saiu sem ver ninguém,
foi a um bar,
tomou um gole,
só um gole,
e ouviu-se um estampido,
só um estampido,
e caiu nos braços
da outra noiva,
para sempre...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 20:45
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Terça-feira, 23 de Maio de 2006

Tu, nua


'Reclining nude' de Luis Ricardo Falero
                                              “Reclining nude”  de Luis Ricardo Falero


Te quero nua.
Assim, simplesmente,
com tua monumental
sensualidade viva,
pujante.
És bela, muito bela.
Não como as mulheres
fabricadas em série,
silicones, lipos, academias,
muitos enxertos...
Mas, simplesmente, bela,
por autêntica
beleza tua,
una e nua.
Não como as grandes
obras de arte,
pois respiras mulher
e transpiras tanta
feminilidade
e animalidade tua.
És a primeira manhã.
Não como uma pintura,
pois te moves
e recendes perfumes raros
de sexo e vida.
Simplesmente, nua,
com as singularidades tuas,
teu odor de flor-mulher,
dona da natureza,
explodindo de amor,
toda nua,
a implodir em mim,
assim, nua.
Tens potencialidades
de guerra e paz,
muita paz.
Múltiplas sensualidades,
diz-me teu corpo.
Diz tremores de terra,
tremores de mim,
diz-me de céus,
de abismos.
Assim, nua,
és o começo, o meio e o fim...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:13
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Segunda-feira, 22 de Maio de 2006

Eu e o rio


'Landscape with waterfall' de Thomas Moran
       “Landscape with waterfall”  de Thomas Moran


Estou aprisionado,
mas sou como rio
represado,
que rola, geme, estala,
despenha veloz,
reclama, grita, não cala.
Não sou água parada.
Não sou o lago presunçoso.
Sou rio, sou pássaro,
nunca o mesmo.
Não tenho paragem,
mostro minha inquietude
de rio.
Minha vocação
é correr sem destino.
Nada me deterá.
Até o encontrar,
rolarei muitos seixos,
subirei para o sol,
deitarei nas nuvens,
cairei em chuvas,
chuvas de mim,
a ver meu destino,
sem amarras,
para as aventuras
e outros horizontes...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:57
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