Domingo, 30 de Julho de 2006

A rua direita


'A moonlit road' de John Atkinson Grimshaw
         “A moonlit road”  de John Atkinson Grimshaw


Tua mão disse tristeza,
teu olhar falou adeus
e sumiste no cruzamento
da rua direita.
Minha mão pairou tímida,
meu olhar
expressou a despedida.
Foste determinada.
Fiquei vacilante,
sem palavras.
O verbo foi contigo.
Todos os meus planos
misturaram-se
à multidão,
como no fim do mundo.
E, depois de alguns anos,
ainda estou na mesma esquina,
petrificado,
independente do tempo
que rói.
Fico aqui
nem sei mais porquê,
se todas as minhas
atitudes
partiram contigo,
pela rua direita...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:45
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Sábado, 29 de Julho de 2006

Destino


'Destin' de André Roulliard
                           “Destin”  de André Roulliard


Partirei como cheguei,
em alguma asa alada,
que, não sei de quê,
vou contrariado
como vim, sem consulta.
Vou. Não tenho opção
e comigo nada de meu levo
de importante,
nem deixo saudades
verdadeiras.
Só as habituais lamúrias
de roteiro previsto.
Nunca tive um grande amor,
apesar de constantemente apaixonado.
E tantas vezes persegui,
cacei, busquei
o verdadeiro, o único amor
das histórias sem fim,
mas não fui cooptado.
Fui abduzido
desta honraria.
Não deixo muitos amigos.
Deles, nada levo.
De tudo, nada entendi
nem aprendi a decifrar
enigmas ou mistérios.
Parto vazio como vim
e a isso chamam
destino...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:28
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Sexta-feira, 28 de Julho de 2006

Aquela porta


'Contemplation' de Villalba
                        “Contemplation”  de Villalba


Aquela porta
que, calada, assistia
muitas de nossas brigas
e, impávida, emudecia,
quando nela batias
e por ela saías,
como um trem de ferro
ou miúra de narinas
resfolegantes
e, depois, voltavas ou
se arrependia,
se, com cuidado, a abrias
e entravas, solenemente,
para renovadas temporadas
de amor, carinhos, perdões,
juras, perjúrios,
carinhos mil, promessas
mil e renovadas promessas...
De tudo participava,
apenas, inerte
ou, das pancadas que recebia,
quando muito, rangia,
pois como eu
abria meu coração
ela também abria,
a cada volta, a cada agonia...
Hoje, fico ali a olhar,
a escutar
a porta, pelo menos, reclamar
e que adentres
cheia de euforia,
sem a porta machucar,
para mais um
recomeço de mim...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:38
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Quarta-feira, 26 de Julho de 2006

Tua viagem


'Woman in morning light' de Caspar David Friedrich
                                 “Woman in morning light” de Caspar David Friedrich


O destino é um bicho
solitário
e mora só em sua toca,
mas pode te aguardar
com um sorriso
ou com um punhal.
Está sempre à espreita
e mil demônios te vigiam,
mas mil anjos te velam,
para surpreender-te.
Espero que aproveites...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 22:50
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Terça-feira, 25 de Julho de 2006

Solidão


'The lamentations of the Poet' de Gustave Moreau
“The lamentations of the Poet” de Gustave Moreau


A minha solidão
me faz distante.
É feita de desamparo,
de onde grito saudade
ao topo do mundo,
amargo e me fortaleço
de nada.
Se só,
tenho a enfrentar
intempéries invernais
e o macambúzio abandono
de mim.
Suspenso entre dois vazios,
sonho amores,
sonho presenças,
sonho muito.
E o relógio me chama,
o tempo urge,
o mundo roda,
a natureza reverbera
e, de olhos vazios,
a pisar em estradas
estrangeiras de mim,
luas, sóis, estrelas,
não canto mais.
Ninguém me escuta
e sou invisível.
São sentimentos particulares
que, de tão distantes,
ninguém sabe...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:44
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Segunda-feira, 24 de Julho de 2006

Algumas lágrimas


'Hope is wanting to pull clouds' de Sigmar Polke
                                   “Hope is wanting to pull clouds”  de Sigmar Polke


Minhas lágrimas
vão me denunciar
pela vida afora.
Por isso, sou refém
de meus amores
e, escravo,
vou cantando a canção
que me toca cantar.
Semitono,
a vida semitona
e, em ricochetes,
as lágrimas presentes
vão-me denunciando,
sempre:
se amo,
se me amam
ou quase amando.
Algumas vezes, quase
sonho
sob minha direção,
como em contos de amor.
Comovo-me quando vem
e quando vai.
Um dia, espero
que fique...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:40
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Domingo, 23 de Julho de 2006

Do fundo do baú (55)


'Distant sound - cool shadows' de David Manje
                                   "Distant sound - cool shadows"  de David Manje


Distante *

Tenho o lúdico na mente
e a esperança
de sonhos adiados,
expectativas de futuro
a contrastar
com o presente,
ausente,
dormente,
que se transporta,
intermitentemente,
para outros lugares,
desde que não seja este
o momento,
o presente,
porque este,
sim, assusta!
Os outros?...
Adiaremos!


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 4 de Dezembro de 2005



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Sábado, 22 de Julho de 2006

Do fundo do baú (54)


'Drawing of a woman' de Sandro Botticelli.jpg
           "Drawing of a woman"  de Sandro Botticelli


O Rosto de Ana *

Na mente, um rosto
posto sem recordação,
em geometria
exata
de tua dimensão
e, depois,
de espera em espera,
de vão em vão,
num átimo, a quimera
surgindo da multidão,
aconteceu!...
E então!
Estás aí,
na transparência correta
de um sonho.


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 28 de Novembro de 2005



publicado por jpcfilho às 21:45
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Sexta-feira, 21 de Julho de 2006

Do fundo do baú (53)


'Peace' de Orah Moore
                                                          "Peace"  de Orah Moore


PARTIDA (Translúcido) *

Antes da partida,
ninguém lhe fez uma
observação digna,
o escutou
ou lhe perguntou
de sua agonia,
nem ouviu quando gemia.
Ninguém lhe fez companhia
ou se interessou
por seus poemas.
Ninguém, ninguém o amou
um dia
de verdade
ou com ele ficou
ou com ele pecou,
qualquer pecado...
Ninguém lhe disse adeus
ou quis saber sequer
quando ia partir
ou se ia ficar.
Ninguém viu a lágrima,
a última lágrima baldia
que escorria,
precipitando
em metáforas de dor
e de amor.
Ninguém realmente
o via...
Ontem ele partiu...
Então, falaram de saudade,
que antes lhe saberia tão bem
e hoje não lhe faz falta...
As insuspeitas qualidades
emergiram tardiamente,
fazendo mal à lembrança...
Sinceramente,
ninguém sabia dele.
Porquê sabê-lo agora?...


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 26 de Novembro de 2005



publicado por jpcfilho às 21:05
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Quinta-feira, 20 de Julho de 2006

Do fundo do baú (52)


'Dream' de Delwin Kamara
                      "Dream"  de Delwin Kamara


Lucidez *

Sempre me falta
lucidez bastante
para rimar em pauta
um amor lúcido e constante
e nisso vivo à malta,
trôpego, bêbedo, errante
à tua procura,
sem saber se perto ou distante.
Encontrei-te?...
Se assim houve,
não soube reconhecer-te
entre as que passaram.
Ainda, se assim houve,
choro a ventura
de rimar a loucura
de meu fiel outono
e da vergonha destes versos
confessos
na madrugada
insone e te esperando...


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 24 de Novembro de 2005



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