Sábado, 30 de Setembro de 2006

Místico


'A lady with a fan' de Albert Lynch
                      “A lady with a fan”  de Albert Lynch


Eu, místico,
vejo-te em uma cadeira
vazia.
Estás com um sorriso
límpido, alegre
e teu.
Os olhos põem-se, felizes,
a fazer sinais,
gestos marcantes.
Estremeço sob o leve vento
e somes.
Mas fica, no perfume,
a tua indelével presença.
Estás neste espaço,
estás em mim,
estás onde estou,
aonde vou.
E, quando a saudade vem,
sempre voltas
e sempre estremeço...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:11
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Sexta-feira, 29 de Setembro de 2006


'Dust bowl' de Alexandre Hogue
                                           “Dust bowl”  de Alexandre Hogue


Não tenho nome,
não tenho pátria,
não sou ninguém.
Não tenho casa
nem religião.
Nenhuma crença extra.
Não torço por times,
não canto louvores.
Nunca tive mestres
nem nada.
Sou apenas um pária
arredio
que pensa o planeta
sem geografias, sem fronteiras,
sem aleluias
ou joelhos no chão.
O chão que dá frutos,
o chão que é meu,
o chão de meu DNA,
em qualquer hemisfério
ou latitude...
Sei que sou terra
e sei que ela sou eu.
Não tenho sabedoria.
Só tenho contemplação
e a espera de voltar para
de onde vim.
Não sou de esquerda,
não sou de direita.
Estou à esquerda da direita
e à direita da esquerda
e sempre rio dessas bandeiras
e de suas múltiplas bondades
ou de seus fanáticos apegos.
Não me enterrem com bandeiras.
O meu estandarte é o mundo
e eu, um grão cósmico.
Apenas observo
a infinitude
de ser poeira
ou menos...
Muito menos!...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:38
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Quinta-feira, 28 de Setembro de 2006

Eu, verme...


'Lord of the worms' de Garth Hill
           “Lord of the worms”  de Garth Hill


Sou o que a terra
rejeitou
e, para descontaminar,
subi à superfície.
Fui desterrado
e me misturei
a meus pares
e, com eles, aprendi
e apreendi o viver
e pratiquei todas
as ignomínias de homem:
nossas invenções.
E, sobretudo, me disfarcei,
fui solerte
e multifacetado.
Disse o que não disse
e apedrejei crianças amarelas
de fome.
Criei armas de genocídios
e rezei minha reza
para meu Deus.
Roubei, principalmente,
dos pobres
e, novamente, rezei
pela minha salvação.
Usei todas as máscaras!
A mãe terra
deu-me essa viagem
de amor e autodestruição
para, quando de volta
à terra,
eu, verme,
compadeça-me de
minha trajetória...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:18
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006

Salto triplo


'Exotic redhead grotto' de Richie Fahey
            “Exotic redhead grotto”  de Richie Fahey


Um morno vento da tarde
trouxe-me os cabelos de fogo
e os olhos marejados
e verdes.
Trouxe tudo
o que tinha de trazer:
carências múltiplas
e melancólicas saudades
de canção inesquecível.
Chegou com a esperança
e, mais uma vez,
trapezista,
arrisco o salto triplo
para dentro daqueles olhos
de espera.
Estava, pendularmente,
sofrido.
Estava. Agora, nem tanto,
se já esculpo e teço
alvíssaras.
Linda mulher,
cabelos de fogo
e olhos verdes
e marejados,
pareces-me o amanhã
e já nem lembro
o passado.
Estou, novamente, vivo
e, trapezista, me exponho...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:17
link do post | comentar | ver comentários (7) | favorito
|
Terça-feira, 26 de Setembro de 2006

Eu, traidor...


'Judas betraying Jesus with a kiss' de James Tissot
                       “Judas betraying Jesus with a kiss”  de James Tissot


Quando a hora chegar
de trair meus irmãos,
quando o preço for tão alto
e as circunstâncias tão favoráveis
que não tenha saída
senão cumprir meu papel maior
e não mais ser uma ovelha desgarrada...
E essa hora fatal chegará...
Então, pedirei para ser noite
sem claridade,
para que eu me esgueire
nas sombras.
Vou cumprir esse destino
cinzento.
Vou usar meu dedo indicador
ou darei o beijo da morte,
ou talvez  inove
e, em tais horas,
lá bem dentro
de minha alma torturada,
estará tão escuro
e exalará tais odores,
que sumirei como Judas
nos confins de mim mesmo...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:13
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Segunda-feira, 25 de Setembro de 2006

Fugidia


'Apollo and Daphne' de Theodore Chasseriau
      “Apollo and Daphne”  de Theodore Chasseriau


Vejo-te distante
e te aguardo em mim.
Algumas vezes,
mais fremente,
olho-te
com emoção,
aperto os olhos
ao te olhar,
beijo-te
sem te beijar.
Como sombra que se desfaz
em átimos,
tento te prender,
mas, fugidia, és fumaça
que sobe às nuvens
e ali devaneias.
Mas, um dia, te retenho,
agarro-te, te algemo
ao pulso das possibilidades
que proponho...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:04
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|
Domingo, 24 de Setembro de 2006

Reserva de sonhos


'Dream of the Orient' de Charles Amable Lenoir
                                 "Dream of the Orient"  de Charles Amable Lenoir


Não esgotes
teu estoque de sonhos.
Não tentes realizá-los
tão rapidamente.
Se puderes,
goza-os, um a um,
displicentemente
e em doses homeopáticas.
Não vás com muita sede ao pote,
pois, quase sempre,
realizados,
ficam-se banais,
e outros serão banais,
quando consumidos
com destemperança.
Esgotam-se por si,
pois os desejos
vão decepcionando
longe daquilo,
quando sonhos.
Guarda, porém, alguns.
Afinal, tens de ter
uma reserva de sonhos,
para sonhares,
sempre.
E que não te faltem
no futuro,
se sonhar é viver...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:08
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|
Sábado, 23 de Setembro de 2006

O peso morto


'Drowned man' de Tim Davis
                                                 "Drowned man"  de Tim Davis


O peso morto,
de alma combalida
e olhos cansados,
flutua no rio,
flutua no rio,
como espelho
nas águas,
sob as estrelas,
sob o luar.
A alma sombria
de lembranças tardias
de não mais voltar.
Mas segue moribundo,
de olhos perplexos,
vendo,
nas estradas do rio,
a saudade lá longe,
seguindo,
não sabe até onde,
não sabe até onde...
Apenas olha,
apenas fita...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:58
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|
Sexta-feira, 22 de Setembro de 2006

Eu e Tu


'Romeo and Juliet' de Sir Frank Dicksee
           "Romeo and Juliet"  de Sir Frank Dicksee


EU sou apenas um corpo
queimando
e uma alma que pena
esperanças,
fruindo saudade
e, voando nas asas
do encantamento,
vou te seqüestrando
para meus sonhos...

TU és o templo
de meus desvarios,
o alimento
de todos meus dias
e noites,
testemunhando
minha solidão...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:30
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|
Quinta-feira, 21 de Setembro de 2006

E como sofro...


'The invention of monsters' de Salvador Dali
                                   "The invention of monsters"  de Salvador Dali


Penso problemas
e sofro
de coisas ociosas
de monta nenhuma.
Sofro de esquálido,
sofro do nada,
sofro do que
quero sofrer.
Portanto, opto
por roteiros aziagos
e deslumbrantes na dor...
E, aí,
é só necessário
levantar os olhos
e, displicentemente,
ver a lepra,
os homens carcomidos,
os meninos da fome,
os pais atarantados,
as meninas dando por "derréis",
a vida como pesadelo.
Veros pesadelos,
sem escolha...
E eu me torturando,
para escrever dores
de faz de conta
para consumo
de quem
não sabe de nada...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:40
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|

.Ao som de:


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 15 seguidores

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Ficastes

. Quase ontem

. Denúncia

. ADEUS, AMIGO

. ...

. Bendito fruto

. ...

. Amor animal

. Interiores

. A partida

.Link em selo



.tags

. todas as tags

.pesquisar

 

.subscrever feeds