Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006

De Heróis e Santos


'Archeological reminiscence' de Salvador Dali
                                     "Archeological reminiscence"  de Salvador Dali


Não existem heróis
nem santos.
Existem devaneios,
e projeções
de nossos sonhos...
Todos tão somente humanos
em suas qualidades
inerentes e intrínsecas
do homem
e sua humanidade,
que, ao pesar, não é muito
do que nos pretendemos,
mas apenas projetos,
sonhos desesperados
de resgatar,
mesmo que em outros,
um sentido mais nobre
para a vida,
para o homem
e sua estatura.
Se, por um momento,
perquirirmos os personagens,
veremos que
os heróis, os santos
e nós mesmos
somos de barro.
Por isso, padecemos
e dividimos
todos os bens
a nós doados,
igualmente...
A nós, aos heróis,
aos santos e aos demônios,
que nos fazem unos...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:41
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Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006

Mentiras & verdades


'Tightrope walker' de Everett Shinn
                          “Tightrope walker”  de Everett Shinn



Tenho alguma atração
por certas mentiras
que, em muitos casos,
são a salvação da lavoura
e dos gafanhotos.
A verdade, em sua maioria,
é arrogante, sufocante,
enclausuradora, oprimente
e constrangedora.
A verdade é uma masmorra.
A pequena mentira
pode:
salvar, aliviar, confortar
e evitar situações incômodas.
Muitas grandes verdades
matam, separam, destroem
aniquilam, devastam.
A verdade elabora dogmas
preestabelecidos
e conceitos irrefutáveis.
Se somos eternos mutantes,
nada é definitivo
ou imutável
nem a quântica
diz números absolutos.
Entre uma e outra,
há que haver o meio termo.
Nunca se apegue
a nenhuma,
nem fique escravo
ou dependente,
e faça sempre
o que sua consciência discernir,
para a melhor convivência,
para o entendimento.
E, sem frescuras,
uma boa mentirinha
pode nos salvar
ou a alguém próximo
de infernos profundos
e sem volta...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:12
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Terça-feira, 28 de Novembro de 2006

Eu e o Tempo


'Autumn' de M. Konstantinova
                                             "Autumn"  de M. Konstantinova


Dei a volta no tempo,
fui e voltei no vento,
aprontei em todas as eras
e sonhei as quimeras
de um destino feliz.
Dei outra volta
e o vento,
mudando a direção
do pensamento
e do tempo,
trouxe-me
à realidade e constatação
de que o tempo,
o vento e as eras
não são afeitos a quimeras,
mas inexoráveis
nos destinos...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:32
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Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

Turvo


'Ancient mariner' de Gustave Doré
                   “Ancient mariner”  de Gustave Doré


Sou um nada,
caminhando
na escuridão,
procurando um amanhã,
pelo menos,
cinzento.
Vivo ao critério
de ventos e tempestades
que não me pertencem,
mas visitam-me,
regularmente.
Sem decisão minha
que eu diga “Eu”,
me arrasto nas sombras
de onde vim.
Não sou,
nunca fui.
Se vou ser,
também não sei.
Dependo de critérios
alheios,
que de mim
ou de nada
sabem...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:31
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Domingo, 26 de Novembro de 2006

O que eu vi


'Allegory of poverty' de Adriaen Pietersz van de Venne
“Allegory of poverty” de Adriaen Pietersz van de Venne


Ouvi uma velha dizer
que passar fome é normal.
Eu vi um menino rir
do futuro.
Vi um homem comendo
no lixo,
como se fosse
um bicho.
Vi a menina Maria das Dores
sofrendo de amores
e de fome,
que come o homem,
que come do homem.
Vi o beato conversar com Deus
e quem ganhou
foi o ateu.
Vi a peste negra
devastar aldeias,
ouvi o canto das sereias,
fui ao norte e ao sul
e nada, nada era azul.
Tudo como dantes:
o homem comendo o homem,
o menino que não tem alma,
a velha que não tece esperança,
a Das Dores
morrendo de amores.
E nada a fazer...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:44
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Sábado, 25 de Novembro de 2006

Poetas


'The Dream of the Poet' de Paul Cezanne
        "The dream of the Poet"  de Paul Cezanne


Não há poeta menor.
Todos são poetas,
porque trazem, em si,
o resumo e a essência
da dor,
da esperança, da fantasia
e todos os anseios
de cada dia,
de cada instante.
Cada qual,
em seu espaço,
e com suas fórmulas,
é poeta!
Apenas eu desafino.
E, sempre que os leio,
é com uma ponta de inveja
e a sensação
de que se me anteciparam
e seqüestraram meus sentimentos,
pensamentos, esperanças,
dores, anseios e fantasias,
sem a minha devida autorização.
E, por isso, amargo,
querendo escrever
uma poesia amarga,
curtindo a solidão
de não ser todos,
todos os poetas.


De: João Costa Filho



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Sexta-feira, 24 de Novembro de 2006

Musa


'Muse' de Irina Mazur
                                       "Muse"  de Irina Mazur


Quando olho para ti,
penso em uma canção distante,
uma cantiga que ouço
desde o começo dos tempos,
lá, onde deixei meus sonhos,
além da fantasia
e das quimeras...
És tu esta canção
que, em repetidas eras,
emociona o mundo
e a mim.
Agora, és meu mundo,
já que me invadiste
como esta canção distante
que, agora, mora em mim.
És a música
e o amor
que em mim habita.
És o desassossego
de que eu necessitava
e meu motivo para paz
e para guerra,
para o amor
e para a dor
que eu gosto de sentir,
como essa canção distante
que ouço de ti,
agora, mais próxima,
pois te aguardo e sonho.
É minha maneira de viver.
Tenho saudade
e nunca te vi.
Tenho saudade,
tanta quanto espero,
ansioso,
pela primeira manhã
da vida...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:09
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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006

Eloqüência


'Dream' de Jurgen Gorg
                      "Dream"  de Jurgen Gorg


Sinto-me hiperbólico,
ao te pensar.
Mergulho profundo
em teus olhos redondos
que dizem oceanos,
nas tuas cores
e sinuosidades
que falam de montanhas,
e proponho tudo!...
Quero beber
todo o firmamento
em teus lábios
e beijar teus olhos
e apalpar geografias...
Vou apagar os versos
ou redondilhas
que te fazem,
sentir ciúmes até de mim,
sem te saber...
Por favor, me diz
onde estás,
onde te escondes,
se ente, se estrela,
se cósmica.
Apenas responde
e alivia os anseios.
Deixa de ser sonho.
Por favor, aparece...
Ou, dia desses,
tomo coragem
e te remeto bilhete
com as palavras
insondáveis...
Quando?
Onde?...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:59
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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

De viver


'Close encounter' de Talantbek Chekirov
                                      "Close encounter"  de Talantbek Chekirov


Num momento,
um olhar ardente,
pungente, fremente,
o tocar, o abraçar,
taquicardias mil,
alguns tremores,
a garganta seca
e a vontade de cavalgar
os corpos,
cada centímetro,
sem desperdícios,
sem perdas.
Corpo a corpo,
corpo e alma,
mãos nas mãos,
mãos em pesquisas,
tateando, tateando...
Olhos rezando,
e ouvidos zumbindo.
E a explosão...
São os encontros,
desencontros
e reencontros...
Fugas, correrias,
anseios, devaneios,
promessas, esperanças
mudas
e surdas.
Creio e descreio,
sinto, amofino,
neste sentimento,
danado de dor
e de amor.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:46
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Terça-feira, 21 de Novembro de 2006

Chove lá fora


'Plaza after the rain' de Paul Cornoyer
                      "Plaza after the rain"  de Paul Cornoyer


A quem vou dizer
que chove
ou que luna?
Como falar
do escorregar do rio
ou da música do vento
nos canaviais?
Para quem dizer
dos projetos do homem
e de suas conseqüências
e do amor e da dor?...
A quem dizer da sombra
que me falta
e de outras
que me perseguem?
A quem explicar
o meu reflexo
que não reflete?...
Chove lá fora,
mas não tenho
a quem dizer:
Chove lá fora...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:34
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