Domingo, 31 de Dezembro de 2006

Calendários


'La vie' de Marc Chagall
                                                          "La vie"  de Marc Chagall


Todo tempo fui velho.
Quase não fui moço.
Minha mocidade
só durou quinze minutos.
Sou apenas lembranças...
Ter e haver são nada...
Fortunas são nada...
As militâncias não me animam.
O saber é nada,
diante do tudo.
O amor e a dor,
passagens necessárias.
O passado, presente,
aqui...
Logo o futuro não dirá.
Só posso carregar minhas rugas
e o desânimo das pessoas
com as pessoas
e comigo...
Tive tempo para alguma coisa?
Se eu fiz alguma coisa?
Algo tem importância?
Que importâncias,
diante do buraco negro?...
Não exatamente
nesta ordem...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:34
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Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006

Meu desconhecido


                                                              “Eye”  de M. C. Escher


Não sei o que se esconde
no centro de minha
digníssima pessoa,
o que habita bem no fundo
de minhas entranhas.
Tenho medo da
revelação...
Muito medo
de, num atrito
inesperado,
a placa tectônica,
que fica ali em baixo,
de onde escrevo,
seja deslocada
em destruidores
tsunamis esquecidos,
mas preexistentes.
Medo de virem à tona
minhas céleres vocações,
aquelas pregadas
em mim,
há milhões de anos.
Como isolar
este desconhecido
que me
não larga?...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:28
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Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006

Eu e o outro


'Metamorphosis of Narcissus' de Salvador Dali
                                    "Metamorphosis of Narcissus"  de Salvador Dali


Viajar em mim
já não basta,
para perceber o gênero
humano.
Olho-me no espelho,
profundamente,
e sou o que nego.
Hesito em me ver,
se, ali, está e mora
tudo que condeno...
Não vou mais acusar,
não vou mais denegrir
ou dizer mal,
ou nomear vilões
ou canalhas.
Vou me abster
dessa ilicitude.
Sequer, vou olhar para trás
ou qualquer sítio.
Sequer, vou sentir vergonha,
pois... se de quem?...
É meu anelo
e estou terrivelmente vazio
de mim.
Ou devo voltar ao espelho
e aceitar que somos
unos
e que eu sou
o outro?...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:30
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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006

Todos somos


'Chained Prometheus' de Peter Paul Rubens
              "Chained Prometheus"  de Peter Paul Rubens


Todos somos penitentes
de remorsos consabidos
ou estigmas impostos.
De uns ou de outros,
impõe-nos o destino
todas as tragédias,
dia a dia.
Suplantá-los ou convivê-los?...
Para estes,
necessito de titânica
e árdua luta
com verdades atrozes
e dramas pungentes.
Para aqueles,
a adaga desembainhada
e a sua ponta
desafiar...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:42
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Terça-feira, 26 de Dezembro de 2006

Malvadezas


'Vanitas allegory' de Pieter Boel
                                              "Vanitas allegory"  de Pieter Boel


Meninos de rua cheirando cola,
homens encovados cheirando fome,
mulheres-puta cheirando homens,
nas esquinas,
embaixo dos faróis
e do céu azul
- o lar.
E, logo adiante,
um homem gordo
discursando a fome,
alimentando-se da fome
e desgraças que grassam.
Discursos cínicos,
discursos malvados,
alheios aos olhos etíopes.
Discursos que dilaceram a alma
de corpos já dilacerados,
vilmente,
criminosamente.
Ideais que ulceram feridas,
para de elas se alimentarem,
cooptando os desesperançados,
os sedentos de justiça
de Deus,
que os deixa à sanha
dos que,
como aves de rapina,
vivem da degeneração,
dão rezas que fingem rosas...
Sofre à mão estendida,
menino ruim,
teu destino é pegar arma
e droga!
Padece, puta velha,
teu destino são as enfermarias
de algum hospital fétido!
E, homem-fome,
morrerás vendo os teus morrerem,
chorando indignidades,
vendo os matadores do futuro
matando o presente...
Só se salvarão
os homens dos dízimos,
os homens dos votos,
gordos e alheios...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:35
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Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2006

O encontro


'Night shadows' de Edward Hopper
                                        "Night shadows"  de Edward Hopper


O céu tinha um porte plúmbeo,
o anoitecer fazia morno,
uma atmosfera rígida
nas cores.
Enigmaticamente, saí do bar,
com uma idéia fixa.
Todo mundo tem idéias fixas...
Apressei os passos
e entrei na noite,
a maquinar meu intento.
Seria hoje ou nunca!...
Hoje, seria definitivo,
chovesse ou caísse
a maior tempestade...
Fui me esgueirando pelas sombras,
remoendo, com angústia,
minha tribulação.
Cheguei à tocaia,
respirei fundo
e me preparei de coragem,
para o evento...
Não esperei muito
e logo aquela figura singular
aproximou-se, saindo do breu.
Vinha em minha direção,
com passos firmes, cadenciados, decididos...
Eu tremia e já não coordenava as idéias,
quando ela plantou-se em minha frente
e, incisiva, perguntou:
- O que queres?
- O teu perdão!
E feri, com uma lágrima...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:07
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Domingo, 24 de Dezembro de 2006

Quem...?


'Thinker' de Mikhail Nesterov
                                 “Thinker”  de Mikhail Nesterov


Não me imponham fantasias
nem me falem de Aves e Marias.
Não me falem de Deuses
astronautas
ou de contrapartidas celestes,
políticas corretas
ou de rezas certeiras.
Não me digam que
melhores dias virão,
para todos.
Quem serão?...
Todos os meus?... Os seus?...
Quem rezará por quem?
Quem pegará da estante
um último livro sagrado,
e salvará um destino?
Quem ajudará um menino
e a mão do irmão
na hora do adeus?
Quem, em madrugadas frias,
disponibilizará um cobertor
e aquela palavra de amor?
Quem aliviará mágoas
transcendentais ao homem?
Quem matará a fome
e, em um gesto simples,
se despirá, publicamente,
e mostrará ser igual,
sem adjetivos apropriados,
sem a universal afetação
de ser íntegro?
Quem, antes da morte,
não chamará seu Santo Nome
em vão?
Quem se atreverá a banir
de seu ego a vaidade nata?
Quem, por um momento,
não perderá uma vida,
antes de se perder?
Quem levará uma flor
ao túmulo do condenado?
Quem, num único gesto,
jurará amor verdadeiro
à menina perdida?...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:43
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Sábado, 23 de Dezembro de 2006

Diluído


'Form-spirit transformation' de Giacomo Balla
                       “Form-spirit transformation”  de Giacomo Balla


Tem uma parte de mim,
bem distante,
onde nunca fui
e, com certeza, nunca irei.
Tem outra parte de mim,
tão fundo
lá dentro de mim,
que não vejo
ou sinto.
Tem outra parte de mim
colada em uma criatura,
em dependência morfológica.
Outras partes espalhadas
neste imenso universo
de tudo:
paixões relâmpagos
em algum Everest
da última galáxia.
Estou, geograficamente, tão diluído
que também não sei onde
nem ninguém sabe...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:58
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Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2006

Versos rasgados


'Still life with book, papers and inkwell' de François Bonvin
                        “Still life with book, papers and inkwell”  de François Bonvin


Vou rasgar todos os versos!
Os versos que escrevi,
porque não tinha
o que dizer.
Vou rasgar aqueles versos
que fiz, porque sentia muita saudade
e, hoje, tenho mais saudade.
Vou rasgar os versos
que pensava falarem lá de dentro,
que pensava seduzirem-me,
que achava me distraírem
de coisas mais sérias
que estes versos,
como esta espada imensa
que me atravessa o peito
e que carrego, gelada.
Coisas mais sérias,
como o grito dos famintos
e a dor dos suicidas.
São muitas as espadas geladas,
por isso escrevi muitos versos
de agonia.
Mas de nada adiantou,
nada floresceu,
nada vingou,
nem esses versos rasgados.
Que os carregue o vento...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:11
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Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2006

Caminho perdido


'Lost illusions or Evening' de Charles Gleyre
                                       “Lost illusions or Evening”  de Charles Gleyre


Tenho de carregar,
desesperadamente,
algumas barcaças,
todas repletas de solidão,
de falar sozinho
e de não ter a quem dizer
do tempo, do meu tempo
e das coisas mais comuns
que me afligem.
Atavicamente, necessito
dizer de meus medos
e da mão pesada que é
carregar sobre os ombros
alguns cadáveres do passado
e sem futuro.
Tenho de atravessar aquela ponte
com a sobrecarga de mim
e de não ter a quem perguntar
onde.
Os caminhos, eu conheço,
mas não sei mais.
É caminhar!...
Meus passos dizem:
Para onde?...
E eu tenho de carregar
aquelas barcaças
e atravessar aquela ponte,
mas ninguém
para me dizer
como, porquê, para onde...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:15
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