Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

Não sei se sei


'Together' de Dagmar Zupan
                                “Together”  de Dagmar Zupan


E sei tantas coisas
que não sei,
faço tantas que não faço,
vou a tantos lugares
que não vou,
digo tantas coisas
que não digo,
que nem sei aonde estou
ou quem sou
ou aonde vou,
nem o que digo
ou a quem digo.
Digo a ti!
Pois, agora, sei aonde vou,
sei o que digo
e sei quem sou.
Eu sou tu
e tu és o outro, em mim.
Somos partes de nós.
Sempre fomos.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:09
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Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

Era uma vez o rio


'Riverbank in the rain' de Gustave Caillebotte
                          “Riverbank in the rain”  de Gustave Caillebotte


O céu chupou o rio.
O rio subiu ao céu,
em escada, sem escala.
E o rio choveu
para minha vidraça,
para o menino
que corre, doido,
atrás da menina doidinha,
para a planta grave.
Cai a chuva no zinco
e sobe no rio,
contra a correnteza.
Voa lépido, sem asas,
e faz o ciclo.
Cai o rio no rio
que cantava.
Hoje, geme
e carrega o homem navio,
o homem vazio
que bebe o rio
que já foi livre,
mas mata a sede da planta,
mata a sede da terra,
mata a sede do homem
que o mata.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:03
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Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007

O que sinto por ti


'L´oubli des passions' de Jean Delville
                       “L'oubli des passions”  de Jean Delville


Eu acredito na vida
e nos homens.
Sempre que estás a meu lado,
sinto-me no melhor dos mundos.
Sinto os perfumes e prazeres
de todos os sentidos,
a fragrâncias do rios
e montanhas,
o aperto no coração no pôr do sol,
uma imensa e perfeita vontade
de amar o amor,
de dançar, de pular...
Enfim, de parecer
o mais perfeito idiota.
Pouco me importam minhas vaidades,
intelectualidades e limites,
pois sinto-me também criança
e passarinho,
e humano,
e acredito nos homens
e em Deus.
Quando me tocas
ou quando nos tocamos,
aí, não sei o que sinto.
São coisas inexplicáveis,
apenas de sentir.
Nada mundano ou simples.
É como se estivesse voando
e todos os prazeres do mundo,
da vida,
fossem concentrados, nuclearmente,
na tua pele, em teu todo.
Não apreendi, ainda, a explicação.
Nenhuma teatralidade
se lhe compara
e sei que nunca saberei dizer
se já houve, em todas as histórias
ou uma vez só no mundo,
em qualquer data,
algo tão atomicamente profundo,
tão nuclearmente nosso,
tão... tão... tão...
assim sutil e perigoso e suspenso,
que se completa, quando juntos.
E, quando não estás,
és o espaço vazio
que o tempo ignora.
O resto são ciúmes
e saudades...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:10
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Domingo, 28 de Janeiro de 2007

Quem dirá?...


'Solitude at dawn' de John Henry Fuseli
                               “Solitude at dawn”  de John Henry Fuseli


Quem enviará um bilhete,
dizendo de carinho?
Quem falará de amores?
Quem comprará as flores?
Quem, no último adeus,
pulará da ponte?
Quem falará de horizonte
perdido
ou de arco-íris?
Quantos estarão presentes
na derradeira missa?
Quem não morderá a corda,
quando falar de amor?
Quem baterá em minha porta,
mesmo me sabendo dorido?
Quem dobrará os sinos,
quando de minha partida?
Quem disputará o lenço
esquecido?
Quem escreverá, na fria campa,
um verso de adeus?...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:43
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Sábado, 27 de Janeiro de 2007

Ninguém tem tempo


'Desire' de Paul Curtis
                                      “Desire”  de Paul Curtis


Ninguém tem tempo
para sofrer de amor:
a vida urge,
o tempo arde,
o corpo clama.
Ninguém tem tempo
para sonhar:
o tempo urge,
a vida clama,
o corpo arde.
Só temos tempo para amar:
o tempo clama,
a vida arde,
o corpo urge,
a alma reclama.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:45
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Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007

A Mãe Terra


 'Earth Mother' de Sir Edward Coley Burne-Jones
"Earth Mother"  de Sir Edward C. Burne-Jones


Alimento-me da Terra
e dela sou alimento.
Sou o barro,
sou a pedra,
sou a lama,
sou o chão...
Sou sua composição!
Minha Mãe Terra,
a cada instante,
convida-me à volta.
Devo ser
um mau filho,
se dela tenho medo,
tenho pavor,
tenho horror
(não é segredo)
de voltar,
definitivamente,
ao seu seio,
de me enterrarem
nas minhas origens...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:17
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Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007

De viver e...


'Le destin' de Henry Siddons Mowbray
                                                                       “Le destin”  de Henry Siddons Mowbray


Deram-me a vida,
sem me consultar.
Nem perguntaram
por minhas preferências
e, agora, me cobram
a volta.
Não sei de onde vim.
Menos, para onde vou.
Sei que não sei,
mas a validade é curta.
Não sei o que fazer
de meu ódio
ou de meu amor
e os meus planos
mal me dão tempo
para apreciar o viver
ou desvendar os mistérios
inerentes,
ou falar de tristezas,
ou convidar uma rosa
para fazer um verso,
ou escutar uma sinfonia
inteira...
Não tenho quase nada,
nem de posses,
nem de saber,
nem saber do amanhã.
Nunca tive
um grande amor
e, ainda assim,
sinto apego.
Também sinto indícios
de remoção.
Novamente, sem me consultar,
sem dizer o epílogo
ou dizer para onde
ou quando...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:35
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Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007

Caim


'Cain and Abel' de Titian
                                   "Cain and Abel"  de Titian


Sinto-me e digo-me a todos,
na mais enfática
convicção,
um honrado cidadão,
um honesto mercador,
inteligência dez, com louvor.
Fiel como um cão,
sincero como ninguém...
Qualidades tantas,
que nem na Bíblia tem!
Mas, quando fito
os olhos
dos meninos dos faróis,
sinto-me um Caim...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:20
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Domingo, 21 de Janeiro de 2007

Costa


'Carving his name'  de William Davis
                                            “Carving his name”  de William Davis


Carrego um estranho
às minhas costas.
Um estranho nome
que a ninguém serve,
que não tramitará,
não nomeará gerações,
não será mais nome
ou sobrenome.
Não será nada,
pois carece de substância
ou carisma...
É, apenas, uma palavra
sem sentido,
que não sobreviverá.
Morrerá comigo,
como um grito
na garganta do enforcado.
É um nome à toa, pálido, sem brilho,
que não terá continuidade,
por desinteressante
ou simplório,
nesses caminhos tortuosos,
onde não é sombra de nome
ou sobrenome.
Apenas, uma palavra vazia
de significado vazio,
como eu,
que não sei explicar seu fracasso
ou sua morte súbita.
Por isso, morro, como ele,
sem dizer a que vim,
sem cumprir a missão.
Incompletos,
adeus, Costas!...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:54
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Sábado, 20 de Janeiro de 2007

O vingador


'The assassin' de Titian
                                         “The assassin” de Titian


E o vingador,
de olhos rútilos,
apontou o revólver 
à vítima subjugada
e sentenciou:
A ti, besta fera,
que nunca deste
chance a ninguém,
nem a meu querido
filho,
deixo-te fazer
tuas orações, antes
de ires para o inferno,
que é teu lugar...
E o ateu,
na esperança de moribundo,
peregrinou por todos
os santos de sua infância,
mas, tudo indica,
nenhum o socorreu.
Ainda assim, rezou...
E respondeu a seu algoz:
Sou besta fera, sim, doutor,
disse, significativamente,
mas todos somos,
por alguma razão justa...
E o estampido
fez a noite...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:47
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