Sábado, 31 de Março de 2007

Destino


'Destin' de André Roulliard
                           “Destin”  de André Roulliard


Partirei como cheguei,
em alguma asa alada,
que, não sei de quê,
vou contrariado
como vim, sem consulta.
Vou. Não tenho opção
e comigo nada de meu levo
de importante,
nem deixo saudades
verdadeiras.
Só as habituais lamúrias
de roteiro previsto.
Nunca tive um grande amor,
apesar de constantemente apaixonado.
E tantas vezes persegui,
cacei, busquei
o verdadeiro, o único amor
das histórias sem fim,
mas não fui cooptado.
Fui abduzido
desta honraria.
Não deixo muitos amigos.
Deles, nada levo.
De tudo, nada entendi
nem aprendi a decifrar
enigmas ou mistérios.
Parto vazio como vim
e a isso chamam
destino...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:15
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Sexta-feira, 30 de Março de 2007

Falemos de amor


'Amoretta and Time' de John Dickson Batten
                            “Amoretta and Time”  de John Dickson Batten


Anda, menina, acorda.
Uma sombra pousou, aqui,
e nos ameaça
com outras desordens.
Acorda...
Temos de decifrar
os códigos etéreos
ou jamais assistiremos
ao pôr do sol
ou exorcizaremos nossos medos.
Acorda, menina.
Temos de ler as inscrições
na eternidade.
Um pássaro logo passará,
nós passaremos todos
e, ante as batalhas e guerrilhas
que enfrentaremos,
enfrentaremos sombras,
sombras de homens
crucificados.
Precisamos de encontrar o mapa
dos caminhos
ou algum alento.
Precisamos, também,
de um planisfério
e de um novo pôr de sol.
E temos que
desencriptar o verbo
e falar de amor...
Só assim veremos a luz...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:01
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Terça-feira, 27 de Março de 2007

Saber?


'A discussion' de Louis Charles Moeller
                                              “A discussion”  de Louis Charles Moeller


Não sei se sei
alguma coisa,
pois toda a vez
que digo que sei
caio em uma dessas
armadilhas de não saber,
pois saber qualquer coisa
é tão profundo
que dizer não saber
também o é
e nos leva à eterna ignorância
de achar que o outro
é ignorante.
Caracterizar é ridículo.
Preciosismo é ridículo.
O certo e o errado
moram no mesmo lugar.
Se um olha da esquerda
e outro da direita,
vêem coisas totalmente diferentes.
E vamos saber
qual dos dois viu certo?...
As interpretações dos textos
ou as exegeses
só explicam
aos intérpretes de tais modelos,
se lhes caem bem.
Melhor não discutir
o ser ou não ser.
Sei nada.
Ninguém sabe quase nada.
A explicação do ovo
ou colocá-lo em pé
são só detalhes
para latifúndios inexplorados,
mas cheios de autores
e de certezas.
A janela do saber é guilhotina.
Põe-se a mão
e podes vê-la decepada
ou tua cabeça
rolará ladeira abaixo.
Vou me recolher aos escombros
de minha sapiência
e assistir à roda da vida
com seus explicadores...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:15
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Segunda-feira, 26 de Março de 2007

Minha religião


'Le chemin du ciel' de René Magritte
                 “Le chemin du ciel”  de René Magritte


Sou um religioso
sem religião.
Todas as minhas crenças
pairam algures,
num Deus incognoscível
que não se desvela,
não fala com o homem
e não nomeia profetas
quaisquer,
mas diz de amor,
de reverberar.
Na divina essência,
a força maior,
só o amor, os versos,
rimas e canções.
São os pássaros,
o rio que musica,
o vento que balança as palhas,
o canto que desgarra,
sem igrejas suntuosas
ou dogmas preestabelecidos,
mantenedores de poder,
das verdades absolutas
e de vendilhões.
A minha religião
não carece de pastores
que falam de infernos (deles?).
A minha religião
está acima de infernos
e dos capetas inventores.
Está na esperança do menino
e na flor que perfuma o punhal.
Sou religioso,
mas não tenho
onde rezar...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:42
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Domingo, 25 de Março de 2007

Negação


'A feeling of dependence' de Sascha Schneider
“A feeling of dependence” de Sascha Schneider


E segues o caminho
da negação.
Nunca estás,
se devias estar.
E te alienas
do todo simples
e te enclausuras
em ilha assombrada.
Se de ti foges,
se o espelho evitas,
jamais caminharás ereto
ou de alma leve.
O teu destino é o outro.
O outro és tu.
E, sem essa unidade
gregária,
nem verás nada
ou serás visto.
A única opção
é o dar as mãos
do eu e do outro
ou o final apocalíptico...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:26
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Sábado, 24 de Março de 2007

Sem pensamentos


'The crossing' de Bill Viola
                     “The crossing” de Bill Viola


Sem pensamentos,
vadio horas no breu
de minha introspecção.
Não questiono
e não tenho solução.
Não penso,
inexisto.
São temporadas escuras,
é a alma com frio,
é passear vazio,
em esquecimentos.
Não tenho idéias.
Sou um só apagão,
o isolamento de mim,
da vida em si,
mas não quero voltar.
Se aqui me escondo,
tenho minhas razões.
E o que deixei lá fora
e causa das angústias
fora ficará
de meu tédio interior.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:57
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Quinta-feira, 22 de Março de 2007

Ode às lembranças


'Romantic idyll' de Wilhelm Kray
              "Romantic idyll"  de Wilhelm Kray


Arrebata-me, menina,
e diz-me das coisas
que quero ouvir,
desde há séculos...
Quero escutar
os sons da vida
e de tua voz,
ouvir loucuras
e mentiras cruéis,
juras, muitas juras,
sem pudor, sem pejo.
Engana-me, menina,
mas faz-me feliz.
Fala-me de flores,
de encantamentos,
dos rios,
dos piqueniques à sombra
de algum jardim.
Fala-me de sexo,
promete-me tudo,
alimenta-me de ilusões
e de sonhos tresloucados.
Faz-me ninar,
conta-me histórias
e mente muito,
pois, nos finalmentes,
tudo é ilusão...
Então, sem melindres,
realiza minha fantasia
de que és tu,
tão somente,
uma mágica de Deus
e, assim, não importa
que mintas,
que me traias,
que sejas decepcionante,
depois de ires.
Porque, o pior, querida,
mil vezes pior,
é nunca ter,
sequer, lembranças...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:29
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Quarta-feira, 21 de Março de 2007

Pedaços


'Echoes of the past' de San Base
                                          “Echoes of the past”  de San Base


Sinto cair de mim
pedaços.
Fogem de mim
momentos
que se vão,
que somem
e voltam.
Pedaços, lembranças
despedaçadas
de sombras
que não voltam.
Não sou mais o mesmo
e me arrasto
incompleto,
à procura das falhas
das verdades,
que me fazem distante
de mim,
dispersivo.
Não me falem mais
de verdade,
que não quero ouvir.
No momento,
prefiro mentiras agradáveis...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:36
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Terça-feira, 20 de Março de 2007

Distante


'Distant sound - cool shadows' de David Manje
                                      "Distant sound - cool shadows"  de David Manje


Tenho o lúdico na mente
e a esperança
de sonhos adiados,
expectativas de futuro
a contrastar
com o presente,
ausente,
dormente,
que se transporta,
intermitentemente,
para outros lugares,
desde que não seja este
o momento,
o presente,
porque este,
sim, assusta!
Os outros?...
Adiaremos!


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:23
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Segunda-feira, 19 de Março de 2007

Velho (pai)


'Allegory of age' de Abraham Bloemaert
                                        "Allegory of age"  de Abraham Bloemaert


Velho,
já me chamam de Velho,
mas é assim a rotativa.
É, Velho!...
Outros Velhos virão,
como você,
como os filhos e gerações.
Mas, Velho,
nessas passagens, me perdoa,
porque ninguém te eterniza.
És, apenas, um segmento,
um elemento sem imortalidade.
Mas, Velho, irmão e amigo,
tudo o que sinto por ti
é veneração.
Queria te provar,
não com o ombro amigo,
mas com as conquistas
que me imaginaste,
mas, Velho,
antes do final,
meu e teu,
quero estar contigo
e, num abraço grande
e amigo,
olhar nos teus olhos
e dizer-te coisas esquecidas...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:34
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