Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007

Eros e Bacchus


'Bacchanalia' de Nicolas Poussin
                                               "Bacchanalia"  de Nicolas Poussin


As forças que habitam Eros
e Bacchus
me empurram
para as desídias
de banquetes chinfrins,
de vinhos e putas
de onde vim.
Lá, onde a luta
é um meio
e o álcool
e a mulher
acontecem
em danadas doideiras,
desvaira, emociona,
transporta
para velozes sufocos,
pois nunca chegamos a lugar algum,
mas ao fim,
de alma sangrenta
dos remorsos de nada
ou fim de tudo...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:37
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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

O homem manada


'Scene of war and fire' de Gillis Mostaert
                                       "Scene of war and fire"  de Gillis Mostaert


Quando, da vida,
a prece nada diz;
quando, do amor,
nada se fala;
quando, nesse mundo,
pouco fiz;
quanto erro
o mundo cala...
Adiante a justiça!...
Adiante a política!...
Adiante a religião,
a comandar manadas
de místicos,
cuja prece nada
diz, em si,
quando o amor cala,
quando a esperança
contradiz
o fanático, o pelego...
E o mundo rui...
Adiante a religião!
Adiante a política!
Adiante a justiça
do homem boi...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:33
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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

O piano


'Tango over the Piano' de Juarez Machado
       "Tango over the Piano"  de Juarez Machado


Num canto, o piano,
sem som, sem tom,
já não cumpre sua vocação
de embalar, em acordes,
dois amantes:
João e Maria.
Sofre o solitário piano
a poeira do abandono
e a solidão de quem se faz solidário
com a separação compulsória
de Maria e João,
que, um dia, cantaram o amor
e também a dor
e muito se compraziam,
junto ao piano.
Mas, agora, sozinhos em seus desencantos,
um para lá, outro para cá,
não se escuta mais o piano
em grande saraus ao amor,
quando, afinado
com os amantes,
reinavam em mil estrepolias
de luz e sonoridade.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:28
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Terça-feira, 28 de Agosto de 2007

Eu e tudo


'The Four Quarters of the Globe' de Peter Paul Rubens
                             "The Four Quarters of the Globe"  de Peter Paul Rubens


Eu sou o centro do Universo,
eu sou o sol, o mar, a lua,
sou as plantas, sou o animal,
sou o sonho de tudo,
sou o ideal,
sou o amor e a dor,
o efêmero e o eterno,
sou o céu e o inferno,
sou todas a cores,
adejos e pássaros voadores.
Sou Adão, sou Eva
e o paraíso,
o nascer e o morrer,
sou o tempo perdido,
sou o patriota, o patriotismo,
os ideais e revoluções,
sou a Paz, sou a Guerra,
moro em cima e em baixo da Terra
e conheço, de conhecer,
todas a Feras.
Sou a construção e a demolição,
no amor, sou melhor que Sutra,
sou o repouso, sou a luta,
vivo em todas as dimensões,
sou Mário, sou Maria, Regina, Terezas e Joões
[tudo que se imagine sou Eu]
das águas, ao fogo de Prometeu,
sou o jogo de azar, sou a vida,
sou a grande emoção preterida
das mãos espalmadas,
os olhos e a mente
a apreciar quem sou
e que sou Eu
e o que mais existir,
do que se possa falar, ver, ouvir,
da injúria, de todos os crimes,
da política e da má fé,
da alegria, a solidão,
sou o mote, o chiste, a canção
que embala toda a poesia e beleza
e toda a desgraça da Terra,
do apocalipse final, ao começo do fim,
tudo emprenhando, rasgando em mim,
sou a pobreza besta e a riqueza frugal,
sou ferro, ouro, sou vegetal,
e tudo que sou, e sou mais,
só sou, por ti...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:24
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Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

O sono é irmão da morte...


'Sleep' de Francisco de Goya
                                                  "Sleep"  de Francisco de Goya


"O chão que pisas
a cada instante te oferece a cova"
(Junqueira Freire)


"Eu cambaleava de sono e a voz da sabedoria me disse:
nunca no sono a rosa da felicidade floriu para ninguém,
por que te entregares a este irmão da morte,
se tens muitos séculos para dormir?"
(Omar Kahian)



Tanta gente querendo viver...
E você deitada aí,
como se defunta fosse...
Tanta gente em leito de hospital,
sonhando com ladeiras íngremes
e ruas de sol,
onde moleques correm
e as árvores envergam
ao sabor do vento...
E você deitada aí,
como se nada valesse a pena...
Quanta gente paralítica,
imaginando a felicidade
da frase mágica:
"Levanta-te e anda!"...
E você deitada aí,
sem respeito pelos que sofrem
de verdade...
Tantas pessoas em presídios,
penitentes de suas vidas,
mas sonhando com
a liberdade de ir e vir
e ver manhãs radiosas
e toda a exuberância de Deus,
do belo, em toda parte...
E você deitada aí,
como se já morta estivesse,
sem perceber suas perdas,
com essas pernas bonitas
e vigorosas,
que poderiam levá-la
a muitos caminhos de rosas
e de espinhos...
como só na vida acontece...
Como podes dormir tanto,
com essa tua idade de borboleta,
em uma vida só e curta,
com a eternidade te aguardando,
para milhões de noites,
sem fim?...
E você deitada aí...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:18
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Domingo, 26 de Agosto de 2007

Quando as luzes se apagarem


'The evening of the deluge' de Joseph Turner
                  "The evening of the deluge"  de Joseph Turner


Antes que as luzes se apaguem,
não me deixem sozinho...
Eu tenho medo da escuridão.
Também tenho medo do vazio
e medo do frio
das noites sem fim.
Antes que as luzes se apaguem,
me dêem as mãos...
Alguém me dê a mão.
Sim, também tenho medo da solidão.
Já é fim de tarde, já é tarde.
Logo, logo, vai escurecer.
Alguém me dê um lampião,
se está para anoitecer
e as noites são trevas,
são trevas e breu,
é a escuridão e eu.
Depois de tanto viver,
de tanto conviver:
amigos, família, amores,
filhos, quantos filhos,
quantos amores, quantas dores...
E já é fim de tarde, já é tarde.
Logo, logo, vai escurecer,
e eu sozinho.
Como fazem falta as mãos,
só para segurá-las
e inventariar o passado
e lembrar... e lembrar... e lembrar...
E, depois, esquecer... esquecer... esquecer...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:14
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Sábado, 25 de Agosto de 2007

A volta


'An old man in an armchair' de Rembrandt
       "An old man in an armchair"  de Rembrandt


Ninguém se importa
com aqueles olhos cansados,
distantes
ou com a profunda interrogação
em si.
Ninguém sabe:
ali passeiam muitos universos
perplexos e vividos...
Quanta vida,
quantos amores
e dores,
e os projetos,
e os desencantos,
construções e desconstruções...
Ninguém percebe
nem ele percebe ninguém.
Está apenas assistindo
a super-produções,
numa grande tela
de sonho
e de volta
e, com ele,
tudo que lhe restou:
um pequeno catre,
um caneco velho
e muitas lembranças
toldadas...


De: João Costa Filho



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Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

Óbice de bar


'Bar interior' de Didier Lourenco
                               "Bar interior"  de Didier Lourenço


Um estorvo na escuridão
traz os mistérios
de ressacas e sobras
da cachaça de ontem,
do cigarro e do café...
Essas agruras baixam
às sombras
restos de mulher
e o sobejo de homem
que sou...
Acordo,
bebo um café,
acendo um cigarro
e volto ao bar,
para desvendar a esfinge
e outros devaneios,
nos misteres da solidão
às sobras de mulher,
da cachaça, do cigarro
e do café.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:08
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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

Tonto


'Rope walk' de Quint Buchholz
                  "Rope walk"  de Quint Buchholz


Parte de mim anda às tontas,
visto os confrontos
a que me exponho,
a cada momento, portanto,
parte de mim anda às tontas,
a outra parte anda zonza,
de tal forma que suponho
não haver nada sóbrio
no meu corpo e intelecto.
Pareço mais um equilibrista
em arame que balança
e nisso vivo às quantas...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:05
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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

Musa


'Muse' de Irina Mazur
                                       "Muse"  de Irina Mazur


Quando olho para ti,
penso em uma canção distante,
uma cantiga que ouço,
desde o começo dos tempos,
lá, onde deixei meus sonhos,
além da fantasia
e das quimeras...
És tu esta canção
que, em repetidas eras,
emociona o mundo
e a mim.
Agora, és meu mundo,
já que me invadiste
como esta canção distante
que, agora, mora em mim.
És a música
e o amor
que em mim habita.
És o desassossego
de que eu necessitava
e meu motivo para paz
e para guerra,
para o amor
e para a dor
que eu gosto de sentir,
como essa canção distante
que ouço de ti,
agora, mais próxima,
pois te aguardo e sonho.
É minha maneira de viver.
Tenho saudade
e nunca te vi.
Tenho saudade,
tanta quanto espero,
ansioso,
pela primeira manhã
da vida...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 22:02
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