Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Ser poeta


'The Poets' de Carol Jessen
                                             “The Poets”  de Carol Jessen


As mensagens poéticas
passeiam em mim
e se reproduzem
e me deixam tonto.
Só passeiam,
pois eu não as traduzo
nem as entendo,
mas sinto
um turbilhão de emoções,
como se poeta fosse
e, em só sentindo,
me aflige a ansiedade
de não poder, como os poetas,
ler e desvendar os mistérios
que habitam as entrelinhas.
Mas me sinto displicente
nessas pungentes metáforas
que a mim tocam,
me faltando a exegese
para os contraditórios
desse latifúndio.
Embora não entendendo, sinto!...
E me regalo nessas esfinges
poéticas.
Por isso, digo baixinho
e desconfiado:
Então, também sou poeta?!...
Mas não entendo...
Só sinto!...
E, como sinto,
sinto muito...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 06:05
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Domingo, 27 de Janeiro de 2008

Poetas


'The Dream of the Poet' de Paul Cezanne
        "The dream of the Poet"  de Paul Cezanne


Não há poeta menor.
Todos são poetas,
porque trazem, em si,
o resumo e a essência
da dor,
da esperança, da fantasia
e todos os anseios
de cada dia,
de cada instante.
Cada qual,
em seu espaço,
e com suas fórmulas,
é poeta!
Apenas eu desafino.
E, sempre que os leio,
é com uma ponta de inveja
e a sensação
de que se me anteciparam
e seqüestraram meus sentimentos,
pensamentos, esperanças,
dores, anseios e fantasias,
sem a minha devida autorização.
E, por isso, amargo,
querendo escrever
uma poesia amarga,
curtindo a solidão
de não ser todos,
todos os poetas.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:56
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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Anacrônico


'A Dandy' de James Tissot
                         “A Dandy”  de James Tissot


Gostaria de ter nascido
na “Belle Époque”,
para passear de tílburi
em caminhos cheios de verde
e praças cheias de rosas
e espinhos,
ver garotos rosados
brincando, realmente,
moços e moças na
amarelinha e ciranda
e senhoras na varanda.
Tudo rimando.
Gostaria de, com os poetas,
apontar com a austera bengala
a aurora boreal,
após noites de gala
no desembalado frenesi
matinal,
de compor amor, com dor
e tuberculose,
como nos velhos tempos.
Gostaria de tocar a viola,
olhando-te na janela,
e que tu, toda bela,
pedisses para explorar-te
e eu, quase tímido,
a enlaçar-te
e, depois, ousado, beijar-te
e, assim, fruir-te
e me eternizar em ti,
até à volta do tempo.



De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 20:44
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Sábado, 19 de Janeiro de 2008

Vizinhos


'Night geometry' de Jack Vettriano
           "Night geometry"  de Jack Vettriano


Sou teu vizinho
mais próximo.
Estou em tuas
intimidades,
estás nas minhas,
nos amalgamamos
em amassos e amassos,
a misturar
suores e odores
e cumplicidades,
tolerâncias
e mais amassos,
e beijos furiosos,
e juras,
e perjúrios,
e juros...
Somos dois em um.
Muito práticos,
somamos e dividimos
teres e haveres,
e convivemos
na aritmética de ontem
e na quântica
que nos aguarda...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 06:40
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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Só...

 

Não tenho inspirações

não rezo em nenhum poema

urdido em flores.

Os versos inalcançáveis,

diluem-se num olhar perdido.

Não leio, não escrevo,

apenas fico embaixo

daquela árvore

a escutar pássaros

que não entendo

e a assistir flores que desconheço.

O vento assopra

a chuva, chove,

o sol alumia,

os meninos, são os meninos.

Mas nada, nada,

põe-se como antes.

Antes do Adeus,

que todos assistiram

E nada fizeram...

Se apenas eu

fiquei só,

muito só...

 

João Costa Filho

 

 

 


publicado por jpcfilho às 08:27
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Domingo, 13 de Janeiro de 2008

A felicidade


'Oh, that I had wings like a dove!...' de Lord Frederic Leighton
        “Oh, that I had wings like a dove!...”  de Lord Frederic Leighton


Há muito tempo,
bateu-me à porta,
olhou-me nos olhos,
pegou-me as mãos
e pediu-me para ficar.
Sorri, e mesmo ri,
e, depois,
gentilmente, pedi-lhe
que me deixasse só.
Ela baixou a cabeça
e partiu,
triste, muito triste,
deixando um vazio sem fim
e a falta de tudo...
Desde então,
desesperadamente,

perambulo abatido

dono de todas as perdas

com um buraco enorme

a me consumir.
Necessito urgentemente

 reencontrá-la...
Foi a felicidade
que altaneiramente

mandei embora
e nunca mais a vi...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 05:39
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

A-moral


'The number of the Beast is 666' de William Blake
   "The number of the Beast is 666"  de William Blake   


Eu, ariano
de raça pura,
que discrimino,
por gosto,
negros, índios, ciganos
e troianos,
e outros inferiores,
soube, há pouco,
de fonte digna,
que não sou tanto
e que um paradigma
aproxima meu DNA
e de meus ancestrais
ao do porco.
Pasmo de nojo,
mas, de ventas altaneiras
e inteligência superior,
evito a lama,
mas não a moral,
na qual chafurdo...


De: João Costa FilhoA



publicado por jpcfilho às 19:05
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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Vulcão

Vulcão 

 


“An eruption of Vesuvius” de Joseph Wright


Tenho todas as esperanças
possíveis:
das ausências que esperam
às presenças que subtraem
e ficam pálidas,
nesse silêncio de ecos...

Preciso de todas as fantasias,
mas só contemplo minha ansiedade,
onde carências
passeiam em mim
todas as manhãs
e noites...

Essas aves geladas
são companheiras fiéis,
são rotina...

Mas, ainda assim, espero
rir, amar e cantar,
expandindo toda a chama
de meus sentimentos
abafados,
como vulcão
que dorme.


De: João Costa Filho


publicado por jpcfilho às 22:00
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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Quem dará um minuto?

 

 

 

Quem dispensará um minuto

para ouvir meu pranto?

Quem dará ombro amigo,

e chorará comigo,

ou me dará abrigo?

Quando contar das ausências ,

desilusões e premências ?

Quem me convidará à mesa lauta,

e ali ouvirá minhas pautas?

Quem deitará comigo,

e me dará o abraço,

grande e amigo?

Quem ouvirá compenetrado,

todos meus amores desvelados?

Quem segurará minhas mãos,

demonstrando compreensão?

Quem lerá todos os meus versos

e os brindará com uma lágrima ?

Quem sentirá meu desabrigo?

Quem se incomodará comigo,

com  meus descaminhos,

se sozinho?

Quem acenderá uma lanterna

para desvelar a  saída,

onde deve haver alguma luz,

para iluminar

 o fim dessa solidão?

Quem me dará as mãos?

João Costa Filho

 

 


publicado por jpcfilho às 07:49
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