Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

ELA

 
 
 
Tempo, versos
poemas, poetas
inamovíveis
passado, lua de prata
cenários, serenatas
ELA
Amigos, boemia
Canções, corações
Contos, conto?
ELA
Estrelas cadentes
músicas, arrebol
mágica, mágicos
momentos, eternindade.
ELA
Vagares, melancolia.
Saudades
doação, amor, dor
cortinas de lembranças.
ELA
Vida maior, pujante
pungente, dormente
superlativa.
Nunca adeus.
ELA
 nunca mais...
 
João Costa Filho
 
 
 
 
 
 

 


publicado por jpcfilho às 23:03
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Domingo, 25 de Maio de 2008

Algumas lágrimas

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 Minhas lágrimas

vão me denunciar

pela vida afora

e sou refém

de meus amores

e minhas dores

e escravo

vou cantando a canção

que me toca cantar

semitono

a vida semitona

e em ricochetes

as lágrimas presentes

vão-me denunciando

sempre

se amo

se me amam

ou quase amando

algumas vezes quase

sonho

sob minha direção

como em contos

comovo-me quando vens

e quando vais

um dia, espero

que fiques...

 

João Costa Filho

 

 

 


publicado por jpcfilho às 14:40
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Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Voltando...


'La vie de bohème' de Alfred Pages
                                               “La vie de bohème”  de Alfred Pages


Um grande silêncio
espera meu grito,
lá, onde a prece se separa
do vento,
além dos morros que uivam.
Aguarda-me, ali, o branco,
sem cor, soma
de meus atemporais desleixos
e da inércia de ser, estar.
Hesito e esqueço
as músicas dos mestres
ou dos ventos que assobiam.
Lá, onde tudo é branco esqueço de mim,
da Maria, da Tereza,
e das ave-marias.
Ali, confiscaram minha sombra
e tudo é branco.
Só esquecimento...
Gostava eu de esquecer
do que não gostava,
mas, onde tudo é branco,
penso negras tempestades,
penso caleidoscópios
que esqueci.
E não me penso alvar.
Quero um pouco de escuridão,
quero reinaugurar a dor de amor,
a paixão desmedida.
Quero minhas lembranças tortas
de volta.
Minha antiga
vida de boêmio, de doido,
quero viver...


De: João Costa Filho


 


publicado por jpcfilho às 20:35
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Domingo, 18 de Maio de 2008

Minha ilha


'Enchanted isle' de Jean Lurçat
                                                  “Enchanted isle”  de Jean Lurçat


Os vultos de minha fantasia
diluem-se em lonjuras.
Como posso estar de mim
tão distante
que não vejo meus pés?...
Estou indo a um sumidouro
que desconheço.
Sou apenas uma ilha.
Ilha de tudo
que desentendo
e do que não aprendi.
Como decifrar o código?
Como permanecer sóbrio?
Como me fazer entender
às vicissitudes
das estrelas, montanhas
e pássaros que passarão?...
Eu também passarei
muitos  passarinhos.
Agarro-me a um poste
e vejo milhões de postes
em uma linha infinita,
para esquerda, direita...
Todas as direções
incontáveis.
A minha solidão também.
A que distância estou de ti?...
Os pássaros passarão
e eu passarei
muitos passarinhos...


De: João Costa Filho


 


publicado por jpcfilho às 14:50
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Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Versos não ditos


'The Muse at sunrise' de Alphonse Osbert
                                           “The Muse at sunrise” de Alphonse Osbert


Muitos versos não foram ditos
àquela musa de outrora,
alguns, esquecidos
e outros tantos, esquisitos.
Alguns pedem retoques,
outros, rimas e toques,
para dizer e tocar nela
com versos e reversos.
Quero ser o que for,
para ser preciso no que preciso.
Quero estar
e nem sei como me anunciar.
Quero, em letreiros imprecisos
e luminescentes, mostrar
meu rosto e o resto
e as trovas que sobram
nesse meu desassossego
de querer aquele outono de volta,
algumas palavras esquecidas,
outras perenes
e as lembranças
inapagáveis...


De: João Costa Filho


 


publicado por jpcfilho às 06:11
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Terça-feira, 13 de Maio de 2008

A noite da balada


'The farewell of Abelard and Heloïse' de Angelica Kauffmann
    "The farewell of Abelard and Héloïse"  de Angelica Kauffmann


De tecido negro,
vestiram minha alma
dilacerada no adeus...
E foi naquela noite
da balada maldita,
que falava de horrores,
de maldições e pragas,
e se fechavam
todas as portas
e janelas,
para esconder
do terror da lenda
e da maldição
de arrepios centenários...
Se verdadeira, não sei.
Mas a noite maligna
ainda assombra,
além das horas.
E minha alma continua
vestida com pele negra
e gelada,
desde que ela partiu,
ao som de outras
promessas
e urdiduras
não menos cruéis...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:30
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Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Pai nosso


'Praying hands' de Albrecht Dürer
                            “Praying hands”  de Albrecht Dürer


Pai nosso,
que és dono
dos céus
e do buraco negro,
santificados sejam
os irracionais que
não se pretendem racionais,
venha a nós
o vosso reino
com todas as árvores,
 rios e as montanhas
verdes de sol,
seja feita a vossa
vontade e que,

todo homem tenha uma janela
para o azul,
e pais e filhos
se orgulhem de
serem homens.
Assim nos céus,
como em toda a terra,
reverbere o amor,
entre todos os homens.
O pão nosso de cada dia
nunca falte,
principalmente, ao menino
das esquinas
e à menina do adeus,
e que seus pais nunca
disso se envergonhem.
E dai-lhes, hoje e sempre.
Não nos perdoe,
quando desviarmos dos pobres
ou a eles (nossos iguais)
negarmos a mão,
assim como nós
não devemos perdoar
aos maus políticos,
aos vendilhões das vidas
ou aos religiosos,

livrai-nos das propaganadas

enganosas
e dos aproveitadores,
pela sedução - essa fraqueza -
para submeter seu irmão.
Enfim, livrai-nos dos fanáticos,
dos santos, dos heróis
e dos profetas,
até ao fim dos tempos.
Amém!...


De: João Costa Filho



 


publicado por jpcfilho às 13:10
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Domingo, 4 de Maio de 2008

A máscara


'The mask' de Gaetano Chierici
                                                   “The mask” de Gaetano Chierici


Não quero mais esta máscara
grudada em minha pele
pelas solicitudes sórdidas
de altos vôos sociais,
para ser um vencedor na vida.
Quero arrancá-la de minha identidade
e me revelar de novo menino.
Necessito, urgentemente,
expurgar do espelho minha face
e derrubar a estátua erigida,
quando me perdi...
E, para reencontrar-me,
vou denunciar-me: Fraude!
Mas o disfarce sobrepõe-se a mim
e sou respeitado pelo que não sou,
sou aceito na presunção de que sou
quem não quero ser.
Ninguém me quer de volta
ao meu lugar.
O meu ‘eu’ de cadáver
vale mais do que o vivo,
mas não quero mais essa máscara.
Já fui menino.
Já tive pensamentos de menino...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 15:11
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