Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Eternamente


'A dreamer' Caspar David Friedrich
                          “A dreamer” Caspar David Friedrich


No âmago de minha alma
tu estarás sempre.
Aqui, moras há muito,
mas quase não tens vagar.
Temo que, mesmo sonho,
um dia partas,
deixando desabitado
o vazio,
nossas conversas e
nossos carinhos
de roteiros precisos,
pois sonhos.
Se pinturas,
tenho o pincel exato.
Se esculturas,
um cinzel vivo.
Se vocábulos,
faço delicadas leituras,
tão delicadas
às almas que amam
incertezas.
E, assim,
sempre estás comigo,
como nuvens, pássaros,
rosa, sexo.
E, assim, retenho-te
indelével,
sem conhecer-te,
mas possibilito tudo,
na inesgotável capacidade
de criar, para mim,
esse mundo de nós dois,
eternamente...


De: João Costa Filho


 


publicado por jpcfilho às 21:35
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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Os crimes do poeta


'A dead Poet being carried by a Centaur' de Gustave Moreau
“A dead Poet being carried by a Centaur”  de Gustave Moreau


Nada posso saber
e nada sei desses crimes
de abjurações.
Talvez, crime hediondo?...
Mas deve ser ele
o culpado.
Um sujeito que beija colibris,
que carrega o mapa dos caminhos
e se perfuma nos raios de lua...
Que se banha no orvalho,
que conversa com os peixes
e os pássaros,
com avencas, dálias
e, com rosas, tira prosa...
Que usa um gafanhoto na lapela,
que assobia e sussurra
o nome Dela,
que atravessa a ponte,
para beber a água da fonte
e da sabedoria...
Que tem intimidades
com o arco-íris,
que deita e dorme
na Via Láctea,
que faz louvação
às noites estreladas,
onde a solidão é nada...
Que conhece
a linha do horizonte,
que tem os pés
em todos os rios,
que se perde no labirinto
dos sonhos,
que carrega consigo
muitas catedrais,
que fala, corretamente,
o idioma dos absurdos,
que entende, preferencialmente,
os loucos,
que é dono dos prantos
e reclamos
das coisas do amor...
Que é vizinho da dor,
que vive nas nuvens
e sabe tudo dos grilos
e dos ventos uivantes...
Que desabrochou as margaridas
e os lírios do campo...
Só pode ser ele!
(quem mais seria?...)
O poeta!
Recomendo a pena capital.


De: João Costa Filho


 


publicado por jpcfilho às 13:45
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