Quarta-feira, 19 de Julho de 2006

Do fundo do baú (51)


'Dreaming nudes' de Alfred Gockel
                                             "Dreaming nudes"  de Alfred Gockel


Traições *

De repente,
acordo à noite
e vejo-as passar,
uma a uma,
como numa procissão,
de passos lentos
e olhos inescrutáveis,
e penso:
a quantas enganei?
ou quantas me enganaram?
Então, faço os cálculos
e, pela média aritmética,
imagino
estamos quites.
Viro-me na cama
e durmo tranqüilo...
Boas noites!...


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 23 de Novembro de 2005



publicado por jpcfilho às 21:13
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Terça-feira, 18 de Julho de 2006

Do fundo do baú (50)


'Silent observer' de Alfred Gockel
                           "Silent observer"  de Alfred Gockel


Espiando *

Estou te espiando.
Sempre estarei
espiando-te passar
e não falar.
Eu também não falo,
por conta de copiosa timidez,
mas te vigiar eu posso,
espiar também,
pois não tira pedaço
nem é infeccioso
e, ainda por cima, não mordo.
Pelo contrário,
quero apenas te olhar
e te fazer carícias imaginárias,
visto que não sei se
te interessaria a verdade,
quando eu te olharia
com esses olhos tão grandes,
te cheiraria
com esse nariz tão grande.
E essa boca...
Ah!... Essa boca enorme!...
É pra te bendizer!


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 19 de Novembro de 2005



publicado por jpcfilho às 21:22
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Segunda-feira, 17 de Julho de 2006

Do fundo do baú (49)


'Le mal du pays' de René Magritte
              "Le Mal du Pays"  de René Magritte


O honesto *

Mora em mim
num jardim
atrás de bom moço
com muito osso
bom cidadão
de nome joão
homem bom
fora de tom
um bom sujeito
mas sem jeito
ou tudodebom.com.br
e tudo o que é efe e erre
de ele é o "cara"
da tara
de poucos pecados
falados
sem mazelas
mas com elas
essas não conto
nem por um conto
sou de segredos
e muitos medos
estes de fundo de poço
com muito caroço
os outros a ninguém interessa
para quê pressa
por que mostrar-lhos
e incentivar-lhos
porque indignar meus pares
se irei prós ares
com minha humanidade
quanta bondade
mas não tenho vergonha
quando fumo maconha
e não falo
só calo
se o sucesso
deste incesto
é justo ser quem sou
com louvor.
Desonesto!...


De: João Costa Filho

* 1.ª publicação – 13 de Novembro de 2005



publicado por jpcfilho às 20:39
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Domingo, 16 de Julho de 2006

De amor


'Le bonheur de vivre' de Henri Matisse
                                            “Le bonheur de vivre”  de Henri Matisse


O verdadeiro amor
pode começar e acabar,
antes do pôr do sol.
Não precisa de eternidade.
Que seja, apenas, infinito
o necessário, indelével.
Pode acabar na mesma
musica em que começou
ou diante do
mesmo cisne,
onde nada se tisne,
ou durante um drinque.
O eterno é o retrato
que do amor ficará.
Dele herdará as fantasias
luminosas e radiantes
de infinitas tragédias
inerentes ao amor,
ao sofrimento, ao gozo:
ingredientes necessários
aos receituários
que se eternizam,
às palavras bem ditas,
às químicas epidérmicas
que desvelam ânsias
e vontade ímpar
da posse, do invadir,
do unificar, em pujanças,
momentos de vida,
do amor,
enquanto dure...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:25
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Sábado, 15 de Julho de 2006

Camaleoa


'Lost illusions' de Alexander Kotchetow
                                             “Lost illusions”  de Alexander Kotchetow


Por me salvar,
em ti me perdi.
Perdição e salvação
e te sonhava.
Vieste e,
agora,
não sei quem sou.
Me perdi, me encontrei,
encontrando-te,
e meu caminho descambou.
Quem sou eu?...
Onde estou?...
Sou teus nervos,
és os vidros nos meus.
Onde estás?...
Quem és?...
Camaleoa?...
Não tinha paz.
Agora, não tenho paz.
Gozo e padeço,
amo e sofro,
sou dependente
e masoquista
do desespero
que busquei
toda uma vida...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 22:47
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Sexta-feira, 14 de Julho de 2006

Saber?


'La discussion politique' de Émile Friant
                                          “La discussion politique”  de Émile Friant


Não sei se sei
alguma coisa,
pois toda a vez
que digo que sei
caio em uma dessas
armadilhas de não saber,
pois saber qualquer coisa
é tão profundo
que dizer não saber
também o é
e nos leva à eterna ignorância
de achar que o outro
é ignorante.
Caracterizar é ridículo.
Preciosismo é ridículo.
O certo e o errado
moram no mesmo lugar.
Se um olha da esquerda
e outro da direita,
vêem coisas totalmente diferentes.
E vamos saber
qual dos dois viu certo?...
As interpretações dos textos
ou as exegeses
só explicam
aos intérpretes de tais modelos,
se lhes caem bem.
Melhor não discutir
o ser ou não ser.
Sei nada.
Ninguém sabe quase nada.
A explicação do ovo
ou colocá-lo em pé
são só detalhes
para latifúndios inexplorados,
mas cheios de autores
e de certezas.
A janela do saber é guilhotina.
Põe-se a mão
e podes vê-la decepada
ou tua cabeça
rolará ladeira abaixo.
Vou me recolher aos escombros
de minha sapiência
e assistir à roda da vida
com seus explicadores...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:51
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Quinta-feira, 13 de Julho de 2006

Tenho dito!


'Comedy and Tragedy' de Eric Kamp
                                            “Comedy and Tragedy”  de Eric Kamp


Já abusei das frases
de efeito,
já cansei as metáforas
e palavras rebuscadas,
fingi conhecimentos
com iluminados discursos,
disse palavras de mel,
usei o amor e a dor,
e os desvalidos,
e os solitários,
e minha solidão,
e todos os artifícios,
e cópias, e remendos,
e me isento plagiário,
quando plagio.
Para fazer apenas
um pequeno verso,
tudo tenho feito:
falar do que sinto,
da agonia de estar só,
de não reconhecer
na multidão
minha redenção.
E vou fingindo ser
o que não sou,
dizendo que nada sei
e fugindo das interrogações
ou questionamentos.
E, por covardia, me ausento
e me perco,
quando me encontro.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:10
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Quarta-feira, 12 de Julho de 2006

Amar-te


'Reclining nude' de Frédéric Bazille
                                              “Reclining nude”  de Frédéric Bazille


Todos os poemas
falam de ti.
Dizem lascívias,
dizem da vida,
falam de desejos
e viagens a Eros e Tânato.
Em muitos desejos,
tudo natureza
em performance
de perpetuação,
estabelecendo, aí,
loucuras de amor,
doudo amor,
um recado de Deus
no pecado venial.
A síntese, o prazer,
a pele, o sangue
clamam, reclamam
tua nudez,
teu aroma de mulher,
a carne trêmula
de alma consumida,
eternizando o bem
maior,
o simples viver,
louvar, tocar, sentir
e, simplesmente, amar.
O resto pouco importa.


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 22:26
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Terça-feira, 11 de Julho de 2006

Sabedorias


'His Master´s voice' de Michael Sowa
                                      “His Master's voice”  de Michael Sowa


Nada é tão fácil
como as explicações
dos mestres da sabedoria
universal.
Nada se compara aos
mapas dos caminhos
para o reino dos céus.
Nada é tão eloqüente e benéfico
como as promessas políticas
e o homem se divide
em esquerdas e direitas,
(Volver!)
em igrejas mil
de urdiduras celestiais.
E sempre estão ali, de plantão,
em tramas e sapiências,
a se locupletar nas siglas,
nas bandeiras, nas imagens
e nas sagradas escrituras
(muitas e diversas).
E essas caleidoscópicas e
multifacetadas sabedorias
vão arrastando os cordeiros
de Deus
abismo adentro.
Talvez para catarse
do pecado original,
cuja origem
é a perfídia do homem-salvador
enviado (?)
para apascentar as ovelhas.
Amém!


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:59
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Segunda-feira, 10 de Julho de 2006

Minha religião


'Le chemin du ciel' de René Magritte
                 “Le chemin du ciel”  de René Magritte


Sou um religioso
sem religião.
Todas as minhas crenças
pairam algures,
num Deus incognoscível
que não se desvela,
não fala com o homem
e não nomeia profetas
quaisquer,
mas diz de amor,
de reverberar.
Na divina essência,
a força maior,
só o amor, os versos,
rimas e canções.
São os pássaros,
o rio que musica,
o vento que balança as palhas,
o canto que desgarra,
sem igrejas suntuosas
ou dogmas preestabelecidos,
mantenedores de poder,
das verdades absolutas
e de vendilhões.
A minha religião
não carece de pastores
que falam de infernos (deles?).
A minha religião
está acima de infernos
e dos capetas inventores.
Está na esperança do menino
e na flor que perfuma o punhal.
Sou religioso,
mas não tenho
onde rezar...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 21:55
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