Domingo, 9 de Abril de 2006

O cão amarelo


'Dog tired' de Barbara Shipman
"Dog tired"  de Barbara Shipman


A primeira vez que o vi não foi de boa impressão, pois o danado estava mijando na roda de meu carro. Ia gritar ou dizer qualquer coisa agressiva, quando vi sua dona, que o pegou pela coleira e o levou, sem sequer pedir desculpa, mas nem precisava, pois eu estava deslumbrado com tanta beleza. Cheguei até a pensar que ser aquele cachorro amarelo não devia ser tão ruim assim. E, daí em diante, uma vez ou outra, eu os encontrava no elevador, o cachorro mijão e sua dona, a mulher maravilha, o que me fazia, automaticamente, acarinhar e brincar com o animal, como se gostasse ou fosse entendido nessas coisas. Só pantomima, se nunca me interessei por cão, gato, papagaio, nada que desse trabalho, pois cuidar de mim, um solteirão convicto, já não é uma tarefa fácil. Mas a moça-bonita e seu cão-nem-tanto moravam em um apartamento que dava de fundo para o meu. Então, comecei a prestar atenção na dupla e o que sabia era que a jovem saía de manhã para o trabalho e só voltava tarde da noite, e o bicho ficava, ali, uivando e me incomodando.
Já pensaram na tortura que é um cão uivando e chorando quase o dia todo? Não é coisa fácil de se aturar.
No princípio, atirava qualquer coisa para lá, onde o animal estava, e, às vezes, ele parava, quando não cuidava de xingar, o que dava que meu reportório de palavrões e nomes indecorosos parecia não ter fim e meu ódio só crescia: cachorro filho de uma cadela, desgraçado, filho-da-puta-canina... Tudo o que me vinha à cabeça eu dizia. Muitas vezes tive vontade de matá-lo. Aquele desgraçado não me deixava ler ou tirar uma soneca, com aqueles seus uivos, latidos e gemidos. Era um horror...

Lá, outro dia, eu, mais pacífico, não ouvi os uivos do costume. Então, comecei a fazer barulho e a chamar a atenção de todo o jeito e ele apareceu em cima do tanque, fazendo a maior festa para mim. Fiquei meio assim. Fui à geladeira e tirei um pedaço de carne com osso e atirei. Afinal, não sou assim tão ruim. Quer dizer, não, vinte quatro horas direto... E o bicho comeu e fez a mor questão de demonstrar que gostou, subindo no tanque e balançando o rabo com tanto frenesi, que cheguei a pensar que ia descolar e se estatelar no chão do prédio... E, como também sou um sujeito solitário, comecei a precisar dos agradecimentos do cão amarelo e dizia coisas agradáveis e o animal correspondia, lá no idioma deles, que eu entendia ou fazia que entendia... E comecei a perceber que, com uma dona tão bonita e vistosa, mesmo assim, o desgraçado daquele cão estava quase doente de solidão, por isso uivava e chorava tanto, o que me levava a perguntar-me por que eu também não estava chorando e uivando. E quem ia ligar?...

Foi na quinta-feira passada. Já fazia uns dias que o cachorro amarelo não aparecia e nem atendia aos meus reclamos, mas deixei para lá. Que é que eu tinha de ficar tomando conta de animal dos outros?...
Sim, nessa mesma quinta-feira, ao chegar no prédio, vi o faxineiro com um saco estranho que logo atirou na lixeira. Não sou muito curioso, mas, não sei porquê, perguntei "Que é isso?", ao que o empregado respondeu "É o cachorro daquela gostosa da sua vizinha!". Não dá para dizer o que senti. O chão me faltou e veio, em seguida, uma raiva sem tamanho.
Fui para meu apartamento, xingando: ah! cachorro filho-da-puta, ah! desgraçado, cachorro amarelo dos infernos! Entrei no apartamento e cai no sofá e recomecei a xingar: ah, desgraçado de merda, morreste de solidão, de solidão, cachorro dos infernos. E chorei, chorei muito e desesperadamente, sem saber porquê.

Será que também estou para morrer de solidão?...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 19:56
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6 comentários:
De Anónimo a 16 de Abril de 2006 às 10:02
Olá, Menina marota, e tu querias ter uma caterva deles, e achas pouco o que tens? É isso aí querida, para criar tem de ter tempo e um pouco de dedicação, tens toda razão, e tudo de bom pra caterva: Sting, Tareco, Hugos, Popas e tais, beijos..espelhodesombras
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(mailto:jpcfilho@sapo.pt)


De Anónimo a 15 de Abril de 2006 às 15:18
Sempre me perguntei, porque é que certas pessoas queres animais de "estimação" para depois os abandonarem à sua sorte. Eu gosto muito de animais. Ponto final. Adoraria ter uma caterva deles, mas não posso. Por isso, limito-me a ter um cão (Sting), um gato (Tareco), um papagaio (Hugo, um canário (popas) e cinco peixes multicolores. Mas, acredita, dou assistência a todos eles. Por exemp. o Sting, está aqui deitado, ocupando a minha cadeira e eu sentadinha na ponta, para não o incomdar.
Pobre cão amarelo. Será que a dona sabia as saudades que ele tinha dela? Porque nunca lhe disse?

Um abraço e feliz Páscoa ;)Menina_marota
(http://meninamarota.blogspot.com/)
(mailto:Menina_marota@sapo.pt)


De Anónimo a 10 de Abril de 2006 às 09:04
É Lu, a solidão é difícil, e infelizmente a maior parte sofre desse mal..espelhodesombras
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(mailto:jpcfilho@sapo.pt)


De Anónimo a 10 de Abril de 2006 às 02:19
Não gostei da reação dele..mas não tinha como reagir de outra forma,não é verdade?E existem aqueles que realmente sofrem de solidão...eu sei.Lu
(http://www.sempudor.blogs.sapo.pt)
(mailto:lu.rosario@yahoo.com.br)


De Anónimo a 9 de Abril de 2006 às 23:37
Sandy, é isso aí, a solidão dói... grande abraço...espelhodesombras
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(mailto:jpcfilho@sapo.pt)


De Anónimo a 9 de Abril de 2006 às 23:27
Texto muito ternurento, mas muito triste. Não há pior que a solidão. Todos devemos temê-la e lutar contra ela. Um simples sorriso pode encher de alegria um ser que está ou se sente só. Os animais não são exepção; também gostam de mimos. :-)Sandy
(http://irisgermanica.blogs.sapo.pt)
(mailto:sandrineb.sousa@sapo.pt)


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