Domingo, 2 de Abril de 2006

Uma história de onça


'Cougar' de Lucia Marie Crane
"Cougar"  de Lucia Marie Crane


Leontino era o nome dele, um contador de histórias para lá de fantásticas.
O sujeito era de uma desenvoltura a toda a prova. Nada o constrangia ou demovia de passar aos desavisados suas aventuras de pescarias e de caçadas, cada qual mais cabeluda do que a outra, mas ninguém tinha coragem de sustentar, ali, na cara do homem, que ele estaria faltando com a verdade. Ele contava ene causos em que teria tido enfrentamentos com onças, jacarés, etc..., e de todos eles o sujeitinho saía ileso e faceiro para contar mais outro.
De um me lembro bem... Um em que a turma, que nunca o desfeiteara, tentou colocar em cheque a coragem de nosso herói.
Pois bem, certo dia, logo ao raiar da manhã, assim que Leontino chegou ao boteco, a turma já lá estava à sua espera, para irem a uma caçada de onça, uma danada que estava aterrorizando homens e mulheres e matando alguns bois. E foram logo pegando o valente pelo braço e colocando-o dentro da camionete, rumo à selva e, conseqüentemente, à captura e morte da mortal assassina daquelas bandas: uma onça suçuarana, daquelas sem tamanho, enorme e devoradora.
Aí começou a desventura de nosso cavaleiro, pois ele de onça ou qualquer outra coisa do mato não entendia nada, a não ser de ouvir, e tinha tanto medo de mato que nem chegava perto, e onça suçuarana, então, nem pensar... Dava calafrios na boca do estômago e tremedeiras no corpo todo, e mais nos joelhos, e um certo baticum nos dentes.
Chegaram, depois de algum tempo e sem muitos problemas, ao local da tocaia, onde tinham de esperar a maldita. Armaram a barraca, organizaram e dividiram os turnos de vigília, do dia e da noite, até que a danada resolvesse aparecer. Durante uns dois dias, cada um foi cumprindo seu turno na pachorra, sem acreditar muito que ali iria acontecer alguma coisa, menos o Leontino que, a cada instante, sentia aumentar mais sua agonia e temor de que a onça ali aparecesse, assim, de repente. Claro que iria comer logo ele, que tanto desfeiteara a raça dos felinos, com suas mentiras e deboches tais, que só ele mesmo.
Então, chegou a vez do turno dele, que seria entre a meia-noite e as três horas da madrugada. Quando anunciaram que era sua vez de fazer o plantão, o nosso herói só não morreu porque tinha o coração forte, e, tremendo todo e falando sozinho, foi para o lugar combinado, a uma distância segura da tenda, e esperando, é claro!, que aquele monstro não viesse. E rezou muito, e suou muito, e chamou todos os santos de seu conhecimento, e valeu-se de tudo, tendo a certeza mais do que certa de que, naquela noite, a onça apareceria, e dizia para si mesmo: Hoje, essa desgraçada aparece, só para me arruinar, me comer vivo, fazer picadinho de minha pessoa!...
Estava nessas lucubrações, quando, assim, rápido, olhou bem na sua frente e o que ele viu?... A onça, enorme, com a cara terrível que ele sempre imaginara e aqueles dentes de sabre à mostra...
Nessa hora, ele se pegou com os santos e pediu, ao menos, que suas pernas lhe obedecessem, e não deu outra. Mais do que rápido, ele já estava de pé e correndo. Corria o que davam suas pernas, e achava que estava correndo como nunca, e corria tudo o que podia, mas a onça corria muito mais, e já estavam chegando perto da tenda dos amigos, e a onça chegando perto dele, cada vez mais perto, tanto que dava quase para sentir o verdadeiro bafo-de-onça na nuca. Quando o animal feroz armou o bote, já estava a uns três metros da barraca e, no momento em que ela pulou para acabar com sua presa - o Leontino - ele topou numa pedra e caiu e a danada passou por cima, indo parar dentro da tenda dos companheiros.
O nosso herói, que era bom de improvisos, aproveitou e gritou: Segurem essa, aí, turma, que eu vou buscar outra!!!
E aí começou o definitivo respeito pelo nosso homem...


De: João Costa Filho



publicado por jpcfilho às 19:24
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2 comentários:
De Anónimo a 5 de Abril de 2006 às 10:00
Linda Lu, esse tal de Leontino é um danado do mentiroso, mas um dia a onça come ele...grande abraço..espelhodesombras
</a>
(mailto:jpcfilho@sapo.pt)


De Anónimo a 2 de Abril de 2006 às 21:18
Gostei di texto e da esperteza de Leontino...olha que jpa vi gente assim, que conta esse tipo de história,mas mesmo sabendo que é mentira a gente ri...tenha uma ótima semana!Lu
(http://www.sempudor.blogs.sapo.pt)
(mailto:lu.rosario@yahoo.com.br)


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