Domingo, 23 de Abril de 2006

Os olhos de Juliana


'Brazilian forest' de Martin Johnson Heade
“Brazilian forest”  de Martin Johnson Heade


Já estava naquela selva há mais de dez horas e nada de achar absolutamente nada. Parecia coisa de feitiço, assombração ou coisa que o valha... Sei lá!... O sofrimento não tinha fim, pois, apesar de parecer pouco tempo comparado com alguns perdidos de selva, naquele período eu tinha passado por tudo quanto era ruim no mato. Subira encosta, atravessara mato fechado, riachos, sendas, veredas, tinha matado umas cobras, duas ou três, não tenho a certeza, e, ainda mais, acho que uma chegou a me picar. Já tinha visto rastro de onça (bicho de que eu tinha o maior pavor), estava morrendo de sede e de fome, e, ainda por cima, estava sendo atacado por hordas de mosquitos de todas as espécies e tamanhos, e a esses acho que não sobreviveria, pois os insetos atacavam vorazmente, com a notável intenção de me comerem inteiro... E, como se não bastasse, esses bichinhos se revezavam em turnos, nunca da mesma espécie, e iam trocando turnos e acabando comigo ou com o que restava de mim. Estava também ferido, arranhado de muitos espinhos, flagelado, cheio de dores e com os lábios gretados pela sede e martirizados pelo suor intenso, que o calor fazia escorrer pelo meu rosto. Enfim, tinha a certeza absoluta de que daquela não escaparia com vida.

Mas tudo isso aí me aconteceu por conta de minha interminável paquera e daquela procura sem fim do grande amor, da mulher perfeita, da rainha de minhas lucubrações...
E, assim, foi que, estando eu em uma lojinha de interior, em uma cidade pequena, Murietá, ali nas Minas Gerais, quando, de repente, vejo aquela que era o fim de toda a minha procura, a configuração da mulher ideal, o meu sonho de mil anos personificado em carne e osso, ali, bem na minha frente. Nada no mundo, nenhuma mulher do mundo, mesmo que em qualquer revista, se lhe comparava. Esta, realmente, era inigualável.
Fiquei muito aturdido. Nunca fui tímido, mas estava paralisado. A mulher a dois passos de mim, me olhando com o sorriso mais lindo e indecifrável desse planeta Terra e eu sem palavras, tímido. Esse não era eu!... Mas logo ela, quebrando aquela muralha, me cumprimentou, perguntou meu nome, perguntou se eu era dali, ao que fui respondendo, cheio de encantamento. Nem parecia eu... Fui entrando na conversa e, com pouco, já estava para lá de apaixonado por aquela deusa, aquela pintura máxima. Convidei-a para lanchar e trocámos mais algumas informações recíprocas, de onde vim a saber que ela morava ali, atrás daquela montanha que a gente via. Não parecia longe, tanto que, quando ela se despediu e me deu as coordenadas de como chegar lá, achei que, mesmo tendo de ir a pé e pela floresta, seria café pequeno, diante de tão maravilhosa prenda. Disse-me, ainda, que sua mãe era uma espécie de feiticeira ou espírita... sei lá!... ou as duas coisas e que estariam ali cumprindo um retiro, e que eu não deixasse de aparecer...

E eu fui atravessar toda aquela carreada de imprevistos, de sofrimentos que estavam me levando à morte. Nunca, em minha vida, imaginara passar por tantas provações, em tão pouco tempo. Só quem sabe de matos e florestas entende bem do que estou falando...
E como fui me meter numa encrenca daquela?!... Afinal, a mulher não era tão bonita assim. Aquela desinfeliz aparecera só para esta armadilha. Ainda bem que não a encontrei!... Mas como pude me enfeitiçar?...
Eu tinha a certeza de que minha hora tinha chegado. As forças já me faltavam. Não tinha nem coragem para me levantar. Meus olhos enxergavam menos. Já achava que a morte deveria vir logo me tirar daquela agonia sem fim, quando me pareceu vislumbrar um par de olhos tão maravilhosamente castanhos, lindos, suaves... Santos olhos!... Eram aqueles olhos que me acordavam todos os dias e ainda tinha aquela boca com palavras de mel, que me encorajavam para a vida. Era um milagre! Estava vendo, naquele inferno, a minha Juliana, a minha doce Juliana. Oh! meu Deus, que saudade de minha amada mulher... Pelo menos, vou morrer com pensamentos para ela, pois é ela quem me ama, de fato. É ela, sim! E por que só agora estou entendendo isso?!...

Penso que, entretanto, desmaiei e, pouco tempo depois, uma equipe que saíra para me procurar me encontrou.
Jamais olharei para outros olhos...


De: João Costa Filho




publicado por jpcfilho às 21:24
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